Neil Jordan: Café da Manhã em Plutão

Café da Manhã em Plutão é feliz em diversos aspectos.

Conceitualmente, conseguiu criar uma fronteira muito clara, em minha mente, entre os fenômenos distintos da homossexualidade e da transexualidade. Patrick, ou Kitten, como ela preferiria, é uma mulher em um corpo de homem. E uma mulher extremamente fútil e alienada. Não tivesse nascido no corpo errado, Kitten seria apenas uma patricinha irritante. O que a faz tão peculiar é o que Morrissey canta em You’ve got everything now: Nature played this trick on me. E as situações, é claro.

Patrick era jovem nos anos 60/70, e a década de sessenta possivelmente foi a única década em que era possível ser jovem; desde então, vivemos na ressaca dela. Tudo acontecia nos anos sessenta, e, como Thom Yorke canta, I wish it was the sixties, I wish i could be happy, I wish, I wish that something could happen. É notável a diferença do tom na película quando entra no final dos anos setenta, e pressente-se a chegada de uma época recheada de intolerância e violência nas ruas.

Apenas nos anos sessenta você poderia embarcar em uma van de uma banda de rock, e sair em turnê com os caras. Apenas nos anos sessenta você poderia trabalhar como uma toupeira gigante de pelúcia em um parque da cidade, ainda mais com o hilário e estourado Bulgária como seu colega. Apenas nos anos sessenta você poderia sair com seus amigos errados para uma conversa psicodélica com motoqueiros numa floresta à noite. Nos mesmos anos sessenta, pessoas esquisitas eram barradas em boates.

Cillian Murphy, que faz o Espantalho de Batman Begins, é Patrick. Seu corpo magro é perfeito para o papel, assim como seu rosto andrógino. Liam Neeson é o padre, pai de Patrick; curiosamente, ele também participa de Batman Begins. Brian Ferry faz uma ponta excelente como assassino solitário de homossexuais.

A trilha sonora é maravilhosa, e só não baixei ainda por não ter um P2P instalado aqui. Os trocadilhos abundam, mas se perdem na tradução, que parece ter sido apressada. Existem os trocadilhos óbvios, decorrentes da ambigüidade sexual, mas os mais divertidos são os sutis, como quando Kitten pergunta a Liam como deve chamá-lo, e ele responde “Father”, que serve tanto para “pai” quanto para “padre”.

À primeira vista, incomodaram-me o ar de futilidade contínua, momentos piegas e certas concessões ao picaresco. Ah, incomodaram também umas velhas na fila atrás da minha, mas isso é outro assunto. Na segunda vez em que vi, fica mais clara a intenção de Kitten ser o personagem, uma máscara, uma armadura, que protegem Patrick de uma realidade onde um transsexual irlandês só poderia se dar muito mal.

Se tudo mais falhar, ainda tem o Liam Neeson vestido de padre, voando por sobre a mesa do café, conforme a imaginação de Kitten. Isso já vale o ingresso.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Cinema Europeu e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s