Paranóias Cotidianas

O universo do lar moderno das pessoas que moram sozinhas é um ambiente muito propício à criação de diversas patologias bizarras, do tipo que soa perfeitamente normal e trivial ao ser envolvido nelas, mas que desprende cores esdrúxulas a qualquer observador externo que apresente as mínimas condições de sanidade.

Um exemplo: manja a Fanta Laranja? Pode ser algum equivalente, como a Mirinda Laranja, embora tubaínas regionais esqueçam do detalhe sórdido a que me refiro. No fundo da garrafa ficam aqueles fiapinhos de alguma substância estranha. Algumas pessoas preferem se proteger em uma redoma de auto-engano, fingindo que são efetivamente fragmentos de bagaço do suco que, hipoteticamente, é usado na preparação do produto. Outras pessoas lançam-se ao expediente de citar mensagens eletrônicas, dizendo que aqueles fragmentos são um embuste polimérico, desenvolvido na medida para parecer-se com os desejados bagaços, passaportes frágeis para o Shangri-lá do reino da alimentação natural e saudável dentro de uma garrafa para líquidos tóxicos e viciantes.

Antes de me prolongar, devo informar você de que eu não faço a menor idéia do que seja aquilo lá no fundo das garrafas de Fanta Laranja, e realmente não me importo. Quando quero me intoxicar, tomo Fanta Uva, bem mais divertida, ou Cueca-Cuela com Montilla ou JägerMeister.

este não sou eu, ok?

Todo este papo serve apenas para conduzir minha miúda, porém valiosa, platéia a uma bacia plástica onde coloco de molho meu quimono. Eu sei, não é o mais glorioso dos destinos, e você já está, inclusive, ligando para a CVC. Mas eu alerto: mesmo uma bacia de sabão e água com um quimono fedorento deve ser melhor que as excursões chatíssimas da CVC.

Isto ilustra outro aspecto das minhas paranóias atuais. Sabe aquele momento em que tu ficas sozinho, você e alguma peça de roupa ultrajantemente suja? Se tu entendes isso, não preciso descrever os momentos que vivo ao chegar em casa depois do meu treino de aikidô. As coisas são mais trágicas no Verão, e amainam agora no Inverno. Felizmente.

A primeira parte do ritual é deixar o quimono no tanque sob água corrente, para tirar o suor e toda uma gama de substâncias tóxicas expiradas durante o treino. Concomitantemente, prepara-se uma bacia de água com sabão, daqueles de última geração, evitando as marcas de slogan engraçadinho. Dilui-se o sabão na água, e coloca-se o quimono lá dentro, onde ele fica até o outro dia, para ser finalmente lavado e esfregado.

No outro dia, a água está cinzenta, com pouca espuma. Você esfrega o quimono, e fica feliz em dois estilos. Primeiro, caramba, como eu treinei, e, diabos, liberei um monte de toxinas e sou um organismo mais saudável agora. Segundo, caracoles, o que é o progresso! Esta tecnologia extrai a sujeira através de um trivial molho de algumas horas, diminuindo o esforço braçal e garantindo maior durabilidade ao quimono. E tudo isso é inferido pela observação daquela água cinzenta…

…até o dia em que tu prestas atenção enquanto dissolve o sabão na água, e repara que ele mesmo libera aquela cor meio cinzenta e baça, que não muda tanto assim depois do molho com aquelas roupas que você sujou com tanto cuidado.

Deve ser algum reflexo tardio de assistir muito Arquivo X.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Paranóias Cotidianas

  1. Josefina disse:

    observo o fundo de garrafas há algum tempo.
    a fanta uva atual é azul caso ainda não tenhas reparado. Na verdade o melhor refrigerante é aquele de garrafinha de vidro, ainda existente em alguns botecos compreensivos.
    não gosto de lavar roupa.
    num mundo tão desenvolvido ainda não inventaram roupas autolimpantes. ahh! santa incompetência!

  2. David disse:

    Agentes reologicos. Para evitar que a fanta decante. tem em quase todas os shampoos, cremes, desedorantes, produtos líquidos em geral e nas bebidas. inclusive no vinho, a tal da bentonita, neste caso.

  3. Jukka disse:

    é, guri! A tecnologia é tanta a ponto de colocarem nessas nabas azuis alguma cousa que deixa a água suja, portanto, pra vc pensar que tá tudo limpo…

    Bufffffff!

    Dica da vovó: Se porrrrr acaso achar q a naba azul não resolve nada sozinha, coloque umas 02 tampinhas de álcool na água do molho. Esquece a QiBoa, QiRuim, QAlva e afins.
    A mistureba chega a esquentar sozinha e, garanto, limpa mesmo!

    Chega de seção Sebastiana-Quebra-tronco.

    Beijim, piá!

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