Quem precisa de Iguatemi?

A pergunta é simples, e cada cidadão já deve ter questionado a si mesmo sobre isso, ou eu sou realmente ingênuo. Está bem, eu sou ingênuo, e poucos realmente estão interessados em desenvolver uma opinião sobre aquele mausoléu que assombra a paisagem da beira da Avenida Madre Benvenuta.

A resposta, para mim, é simples: boicote. Como um resquício de minhas ideologias adolescentes, eu não entro naquela birosca nem amarrado. Impelem-me à atitude, basicamente, a ocupação indevida daquela área e o horror que tenha a xópis em geral.

Pensando bem, não é difícil, para mim, evitar visitas a este novo palácio do consumo. São lojas novas, que já existem em outros lugares, vendendo os mesmos produtos, ou produtos novos que eu nem sei que existem, e que provavelmente de que não necessito.

Eu disse “necessito”? Necessidade é um conceito relativo, e mesmo as necessidades corporais podem gerar polêmica. Afinal, existem seres humanos que vivem de luz, ouvir falar, então mesmo a ingestão de alimentos é questionável.

Ironia, está bem?

Boa parte, para evitar porcentagens furadas, das nossas necessidades não é uma necessidade. Não necessitamos de carros ou celulares, vivemos cercados por objetos supérfluos e inúteis, vamos a lugares que não fazem a menor diferença. Nossa classe, média, possui um excedente, e ele se perde em supérfluos. Em lugar de ir para a melhoria da sociedade, ele vai para o crescimento, e aí voltam as porcentagens.

Uma falácia aplicável: Xópis concentram lojas e estruturas de lazer, de modo a otimizar o tempo das pessoas. É uma mentira, dado que xópis são projetados especialmente para percamos tempo dentro deles. Se tens dúvidas disso, faça um teste: vá de carro ao xópis, deixe-o no estacionamento, e corra à praça de alimentação, adquira um risoles, ou equivalente de nome floreado, e tente voltar a tempo de não pagar estacionamento. Vai lá. Depois continua lendo.

Ah, já voltou? Só quarenta e sete minutos? Que bom, quase um recorde.

Mas finjamos que são estruturas concentradas para evitar desperdício de tempo, pois boa parte das pessoas acredita nisso. O tempo que sobrasse poderia ser utilizado pelo vivente para desfrutar do ócio, da família, da arte, da degustação, da meditação, da prática de exercícios, da visita aos idosos, dos trabalhos sociais, do conhecimento de outras culturas… Mentira! Corremos em nossa vida diária apenas para refestelarmos nossos traseiros gordos na frente da televisão ou de algum entretenimento vazio equivalente.

O que mais dói, nesses dias novidadeiros, não é ser continuamente questionado sobre se já fui conhecer o novo xópis, o que, por si, já é bem coisa de jeca, mas ouvir de pessoas esclarecidas que o xópis deve ficar ali mesmo, pois a destruição já foi feita, então cabe a nós, ao menos, aproveitar.

Aproveitar? Não digo que a solução seja botar abaixo aquele monstrengo, embora sonhe continuamente com aquele caixotão cheio de teias de aranhas e paranhos, desprezado por um povo conscientizado de sua identidade e de sua cumplicidade com a natureza. Pensando bem, isso é o mesmo que colocar tudo abaixo, mas com o bônus de manter um exemplo edificante, amo trocadilhos, do destino de quem desrespeita nossa ilha.

Entretanto, não vai acontecer. Nossas ruas estão se esvaziando. Sábado notei isso: o CDL criou uma série de eventos para vitaminar as vendas para o dia das mães, e as ruas do centro estavam movimentadas, com música, apresentações, pessoas para lá e para cá. Restrito, no entanto, aos calçadões, e ao horário comercial. Logo depois, um pouco mais longe, tudo vazio e desolado, apesar do Sol agradável. Olhava para as calçadas da região da praça dos bombeiros, e pensava em quanto seria charmoso tudo aquilo com pessoas caminhando, músicos, artistas, pessoas, enfim. Mas quem precisa disso? Precisamos de Iguatemi.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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8 respostas para Quem precisa de Iguatemi?

  1. Turnes disse:

    Tu foi ver Elvis & Madona que eu sei. Por amizade né….quer dizer, não o fato de ver o filme mas de ir ao xópis, enfim…

    • gilvas disse:

      e a contragosto, pois as salas do floripa são bem superiores. o iguatemi parece xópis de blumenau, aquele lugar onde as pessoas se arrumam para ir, botam roupa de domingo.

      aliás, repito: meu amigo, tu estavas ótimo no filme. ri horrores.

  2. Ana Corina disse:

    hihi Mas pra ajudar os peludos vc foi… Tá valendo!

  3. Pingback: Peter Docter: Up « sinestesia

  4. Sinistro disse:

    you’re completely crazy !

  5. Adilene disse:

    Saraiva, concordo. É um oásis…

  6. Tony disse:

    Teu mau humor tá piorando.

    Mas vai lá sim: além dos dois abacaxis grotescos tem uma livraria da saraiva que, apesar de não ser grande coisa, é algo melhor que as outras disponíveis na ilha. Ou não… hahaha

  7. Bernadete da Silva Sauro disse:

    primeiro que gosto dessa foto surreal, mostra bem os relacionamentos de hoje em dia.
    segundo que posso te contar como é o xópis, já entrei lá.
    ele é primo do beira-mar, só que é mais branco e tem dois abacaxis gigantes “harborizando” o ambiente interno.

    mas as manifestações deviam ter sido feitas antes, na minha humilde opinião. e não depois de feito, e das merdas que vieram a tona.

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