Dois Filmes

Minhas visitas ao CIC já foram mais saudáveis. Estive na segunda-feira por lá, decidido a ver as duas bombas do dia, os esforços mais recentes de Woody Allen e Sofia Coppola. O Barão de Taubaté ia comer solto, mas eu estava ciente, e uma aura de despretensão irônica cercava-me.

Infelizmente, ela não foi o suficiente para encarar a turba que estava ali para assitir ao FAM. Confesso que passou pela minha cabeça apostar nos curtas do FAM, opção que fornecia o benefício da dúvida, ao menos. Entretanto, era tanta superficialidade que eu saí do Matisse logo que acabei meu xôpis.

Parece existir um protocolo cult de vestuário, e todos o alternativos o usam. Dá-lhe barbas e cabelos desgrenhados no lado masculino e roupas fora de contexto e combinação no lado feminino, e uma androginia calculada e voluntária para ambos. Um reflexo de despreocupação com as trivialidades da existência virou um clichê que carimba passaportes para o universo das esferas culturais pretensamente mais elevadas.

Pausa para vomitar.

Maria Antoinette começa sob o signo do rosa Sex Pistols que a diretora vai imprimir, mesmo que metaforicamente, em quase todo o restante da película. Ela explica que escolheu a trilha porque aquelas músicas a acompanharam desde a adolescência, e que evocavam os sentimentos necessários. Resulta semelhante ao que se vê em Moulin Rouge, com o demérito de serem versões originais, gerando um efeito de videoclipe pela dicotomia de estilos. Filme de época com trilha de rock? Patético. Ela deveria fazer videoclipes se o lance dela é criar esquisitices instantâneas que apenas adolescentes entendem.

De Encontros e Desencontros para este filme, Sofia Coppola não aprendeu muita coisa. Sua mão continua pesada, e ela cisma em alongar demais as situações engraçadas, estragando potenciais momentos divertidos em nome da didática, coisa que ela não tem condições de lançar mão.

Se existe um mérito, é a visão de Kirten Dunst, que acaba sendo tão espectadora quanto você. Ei, tem algo errado aqui: o vetor cinematográfico clássico indica que o espectador se identifica com a personagem, e não a personagem com o espectador. E a corte austríaca não devia ser assim tão diferente da francesa, não a ponto da princesa enviada à França estranhar tanto o que ocorria no universo dos gauleses.

Ainda no capíulo Trilha, Sofia fica devendo-nos a melancolia que aquelas músicas inspiram. Ouvir Ceremony durante uma celebração demanda um bom diretor, o que, definitivamente, não temos neste filme. Aliás, se tivéssemos um bom diretor aqui, teríamos uns planos bonitões, planos longos, explorando as belas locações e as reflexões das personagens.

É, Sofia, vai fazer clipe para os Strokes, vai, e deixa All Cats Are Grey em paz.

Woody Allen jogou de vez a toalha neste se Scoop. Tentando repetir as glórias passadas, pegou elementos vitoriosos, e colou-os em uma colcha de retalhos que se assemelha a um saco de gatos. Nada funciona direito, e o filme pode fazer carreira como objeto de estudo sobre diretores que não notaram que ficaram gagás. Deus, ele faz muita besteira!

Primeiro, Allen interpreta. Inicialmente, a mistura de metafísica divertidinha com piadas sobre judeus é interessante, mas logo incomoda, e mais tarde chateia. A criação de personagens não é das melhores, perdendo tempo em descrições apressadas de pessoas não tão interessantes assim. As piadas acabam se acomodando na ponte da incongruência entre britânicos e ianques, o que demonstra a preguiça do velho Woody, assim como as pistas policiais frouxas. Só me intrigou de verdade o momento em que eu tive dúvidas se Woody mataria, como em Match Point, a personagem de Johansson, mas esta ilusão durou pouco, e logo eu estava perdido em divagações sobre a razão do diretor frisar tanto o método com o qual jornalistas gostosas conseguem matérias.

Ah, o casal bonitão: Hugh Jackman deve freqüentar as listas de boa pinta de milhares de mulheres, e Scarlet Johansson dispensa apresentações, e a química entre os dois é, uhm, fraquíssima. Individualmente, nota-se uma nota de esperança na interpretação, mas os dois simplesmente não sintonizam. Pá de cal: lembrei do atual programa do Didi enquanto observava a interação Allen, Johansson e Jackman.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Dois Filmes

  1. Pingback: Patuscando com Coppola « sinestesia

  2. Ox disse:

    1) pausa pra vomitar;
    2) pá de cal.
    hauehuahuhuhauheuhauheu só vc mesmo, cara!
    nossa o lance do all star me lembro uma ópera que assisti aqui em curitiba em que parte do elenco usava jeans, camiseta e all star… por falta de grana mesmo! bah, então eles que não montassem a ópera!
    putz, cult label é foda! todo mundo é igual!
    bom ler de novo aqui no seu blog depois de tanto tempo!

  3. gueixa disse:

    o filme do madeirinha allen, tu só viste pq tem o cara que é o wolverine.

  4. Juliana Cunha disse:

    Concordo plenamente com seus comentários sobre o filme de Sofia Coppola. Parece que os críticos temem xingar os filmes da herdeira Coppola por conta de sua cadeia de DNA. Há uma certa obrigatoriedade em apreciar filmes de uma diretora “cult”, e se você não gosta é porque não compreende o significado oculto do filme rsrsrs. Não entendo como há fãs que consideram uma verdadeira demonstração de genialidade da diretora a cena em que um all-star pink aparece em meio aos sapatos da época, francamente! Quanto ao novo filme de Woody, ainda não tive oportunidade de assistir…enfim, continuo fã do blog! Abraço!

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