Cláudio Assis: Baixio das Bestas

Sobre o cartaz de Baixio das Bestas, no Cine York, destacava-se um papel, colado com fita adesiva. Escrito à mão, o alerta para a restrição de idade. Esta precaução foi adequada: Baixio das Bestas é um filme indigesto. E as pessoas leram: dos poucos espectadores da sessão noturna de domingo, nenhum deixou a sala. Diferente de uma sessão de Cidade de Deus no Beira-Mar, onde várias pessoas deixaram a sala na altura em que o guri tem de escolhar tiros na mão ou no pé. Baixio das Bestas mostra ao menos dois estupros e uma empalação monstruosa, o que o coloca em outro patamar de embrulho de estômagos sensíveis.

O aspecto mais óbvio da restrição é o grande número de nus: frontais, laterais, posteriores, infantis, adultos, vale tudo. Neste ponto, Baixio das Bestas parece beber na fonte da pornochanchada brasileira oitentista. O buraco é mais embaixo, e não espero que perdoem o trocadilho.

Os personagens falam tanto palavrões que os dubladores de Feira da Fruta ficariam corados. A violência sexual está estampada em todas as tramas do filme; as mulheres sofrem terrivelmente nas mãos de machos deturpados, depravados, lançados ao mais sórdido dos poços. Os machos são tão ridículos que pode-se enxergar nesgas de ética nas ações do avô de Auxiliadora. Afinal, o pudim só desanda de vez quando ele se afasta. Ilusão. Por vezes, o espectador pode pensar que trata-se de uma patologia pessoal do diretor, mas é apenas um engodo confortável: aquele Brasil existe, naquela intensidade.

A tensão é uma constante. Auxiliadora caminha inexoravelmente para o destino que todos os espectadores já percebem desde o começo. A questão não é “se”, é “quando?”. Pode ser nos fundos da igreja, onde uma corja de caminhoneiros observa sua nudez, pode ser quando ela caminha para casa pelas estradas, pode ser enquanto ela espera a condução, pode ser quando permitem que ela seja tocada, e por aí vai. No país inviável em que vive, Auxiliadora apenas pode esperar seu destino cruel, comum a diversas mulheres da região.

O dipolo avô-Auxiliadora é o centro do filme. O segundo núcleo de ação é formado pelos agroboys interpretados por Matheus Nachtergale e Caio Blat. Conhecidos por papéis engraçadinhos ou bonitinhos, os atores encontram a chance de se exercitarem na pele de dois crápulas imperdoáveis. Nachtergale já não era flor a cheirar em Amarelo Manga, primeiro longa de Cláudio Assis, mas o monstro de Baixio das Bestas vai mais longe: é quase uma força primordial, uma besta apocalíptica, um catalisador demoníaco, um foco para as tendências desocupadas do personagem de Blat.

Não existem grandes inovações no discurso visual de Assis. Ele reedita o estilo de Amarelo Manga, com algumas melhorias. O cinema, por exemplo, possui duas camadas de metalinguagem canalizadas por Nachtergale. Primeiro, o ápice das cenas de violência dele ocorrem em um cinema abandonado. Segundo, seu olhar para o momento em que diz que “certas coisas só são possíveis no cinema”, ou algo que o valha.

Funciona? Talvez. Meu estômago ainda está embrulhado a ponto de eu não poder julgar suas escolhas. Por ora, posso dizer que Baixio das Bestas é vigoroso, passo adiante na filmografia de Assis. Entretanto, um terceiro longa é necessário para verificar se Assis não permite que seu trabalho se dissolva em obra simplesmente panfletária. Os detratores dirão que é apenas pornografia e violência apelativas, mas cabe ao futuro o decreto definitivo da relevância da obra de Assis.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Cláudio Assis: Baixio das Bestas

  1. Ox disse:

    eu até vi que era proibido para menores, mas não imaginei que seria tão pesado. eu pensei que fosse um filme legal com o nome escroto. mas era um filme escroto com nome escroto!
    o que me assustou foram algumas lembranças da infância. morei num lugar meio parecido com aquilo ali, então eu sei que esse brasil realmente existe!
    ainda bem que agora estou morando em curitiba que é um lugar com pessoas na medida do possível mais educadas, controladas, frescas… enfim, hipócritas. mas é uma hipocrisia bem mais fácil de conviver! 😛

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