Vendendo Créditos de Carbono

Digamos que você é uma daquelas pessoas anormais que pensa que o Oscar ainda possui alguma importância para o andamento adequado dos eventos no planeta Terra. Ei, não fique triste; não é tão ruim ser anormal. “Anormal” pode ser lido como “excêntrico”, que é mais charmoso, e vai permitir que você se identifique sem se sentir tão mal.

Um dos grandes vencedores do Oscar foi um célebre perdedor: Al Gore. Seu filme é pouco mais do que uma apresentação de Power Point, o que nos faz pensar nos critérios da academia. O mote do filme é o aquecimento global, uma fonte imensa de controvérsias e polêmicas entre os cientistas, não raro transformada em simples discussão de boteco.

Ainda que a teoria esteja mal embasada cientificamente, o esforço de Gore seria louvável, no sentido de educar a população mundial no respeito ao planeta onde vivemos. Convenhamos: qualquer mentira é perdoável se o objetivo é impedir este bando de idiotas, nós, de destruir o nosso frágil ecossistema. Pais vêm enganando crianças com mentirinhas caseiras, e o mundo é pior por isso? Sim, pode ser que seja pior, mas poderia ser pior ainda, e não é disso que estou falando.

Suponhamos que o mundo esteja indo a pique, e que os culpados sejamos nós: animais consumistas e gulosos, devorando os recursos da Terra em um ritmo que ela não acompanha. As pessoas boazinhas do Primeiro Mundo se reuniram, e pensaram em formas de diminuir seu impacto, de preferência sem ter de cortar nenhum dos luxos de suas vidas gordas. Fala daqui, discute de lá, eles criaram o maravilhoso conceito do Crédito Ambiental, algo que a Veja representa como pequenas árvores em seus infográficos.

Como funciona este troço? O Primeiro Mundo Desenvolvido e Rico sente culpa por ser tão porcão. Entretanto, ele tem preguiça de deixar de ser porcão, então ele pensa em seus irmãozinhos do Terceiro Mundo: “Bem que eles poderiam plantar umas árvores.”. Nossos irmãos ricos começam a rabiscar então, e o resultados são algumas equações envolvendo dispêndio de dióxido de carbono e as possíveis formas de absorvê-lo de volta. Isto nos remete às árvores dos infográficos da Veja.

Para uma determinada emissão de dióxido de carbono, o culpado terá de plantar algumas árvores. Um show dos Rolling Stones? 300 mudas. Missa do Papa? 200 mudas. Uma fábrica de refrigerantes? 800 mudas por ano. Os irmãos juntam uns trocos, e mandam para os irmãos pobres plantarem árvores.

Vai funcionar? Meio difícil de dizer, dado o número de dívidas que envolvem o assunto. Teremos muita água por baixo desta ponte, e eu não me surpreenderia com manchetes negando todas as suposições daqui a algum tempo.

Por outro lado, as duzentas mudas do Papa vão realmente atingir a idade adulta? Elas devem ser cortadas assim que atingirem a idade adulta? Árvores só absorvem muito dióxido de carbono quando em crescimento. Estas árvores são adequadas para os ecossistemas onde serão aplicados os créditos? Elas realmente serão plantadas? Mais de um escândalo já pipocou sobre ONGs falsas. Existe toda uma sorte de problemas associados à terceirização da culpa ambiental eurocêntrica, o que me leva a pensar se não seria melhor deixarmos de fazer os outros resolverem nossos problemas ou juntarem nosso lixo.

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Este texto estava ainda no forno quando eu me atraquei com um exemplar de Istoé. Não me questione sobre as razões que me levaram a abrir uma revista pouco menos abjeta que a Veja, pois eu responderei com algum comentário místico sobre as coincidências e sobre como o universo, conforme Crowley e não Rabbit, conspira para que as coisas ocorram nas vidas das pessoas.

Mas estava lá: uma matéria da Time, escrita por alguém consciente e/ou com ódio de democratas e traduzida pelo staff da Istoé. O tema? A falácia dos créditos de carbono! Deus, exatamente o que eu queria dizer aqui, e ainda contendo embasamento e argumentação estruturada, mais alguma espuma, pois o rapaz estava louco para meter um pé no traseiro abobado do Al Gore. Ainda não achei isso na internet, mas, assim que eu achar, coloco link aqui. Deus, ele compara os créditos de carbono às indulgências católicas, aquelas mesmas que detonaram a Reforma Protestante, e ainda deu uma idéia excelente para os trambiqueiros de plantão: construir usinas sujas na China, e depois otimizá-las para ganhar bônus de carbono.

Ah, achei um trecho: “A Goldman Sachs é uma das empresas de Wall Street que estão tomando as medidas mais energéticas contra as mudanças climáticas; à noite, a companhia manda seus banqueiros para casa em limusines de combustível híbrido”
The New York Times, 25 de fevereiro.

Semana que vem o ecochato volta aqui para dar umas dicas sobre como ser um cara mais legal para o planeta, e não um bundão que apenas quer ter sua consciência limpa por alguns trocados.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Vendendo Créditos de Carbono

  1. ventomar disse:

    Droga, justo agora que eu ia vender algumas mudinhas de carbono pra ver se ganhava uns trocadinhos aqui…

  2. Pingback: Dante « sinestesia

  3. Pingback: Steven Pinker: Como a Mente Funciona « sinestesia

  4. gilvas disse:

    este comportamento de al gore demonstra que não estamos longe do primeiro mundo quando se trata de político safado: as famílias de nossos deputados também são especiais, podem viajar com verba da câmara.

  5. Francis disse:

    Caro Gilvas, obrigada pelo comentário no Buenas, e gostei muitíssimo do seu post. O artigo que compara os créditos de carbono às indulgências é genial… Ah, e sabe quanto o bonzinho do Al Gore paga de conta de luz? 40 mil dólares por mês. Quando questionaram como ele pode pedir que as pessoas consumam menos gastando tanta energia na própria casa, ele respondeu: “Cada família tem uma necessidade diferente de energia.” Rá! Não é lindo? Merecia o Oscar de melhor ator.

  6. Nira disse:

    acho que quero um trabalho desses… passo o dia dormindo e as pessoas me pagam pra que elas andem de carro e eu permaneça na cama…

    beijo.

  7. Christian disse:

    Acho que o ponto é exatamente esse: terceirização.

    Uma constante entre Al Gore e seus apóstolos (em várias partes do mundo) é a idéia de que o aquecimento global é preocupante e tudo o que devemos fazer é deixar que “eles” cuidem disso. Todo nosso trabalho deve-se resumir a distribuir panfletos e comprar briga com quem se atreve a pilotar veículos off-road a diesel, fazendo a caveira destes e agradecendo a Gaia pela existência do ambientalismo ideológico.

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