Nick Hornby: Como Ser Legal

Desfilar pelas ruas de Florianópolis com um exemplar de Como Ser Legal, livro de Nick Hornby, é cortejar os engraçadinhos para que despejem suas últimas piadas sobre o universo dos livros de auto-ajuda e seus efeitos pérfidos mesmo sobre pedantes potencialmente esclarecidos. Os editores brasileiros poderiam ter tornado minha vida mais simples traduzindo literalmente o título. “Como ser bom” soa perigosamente cristão, mas é melhor arriscar a inclusão enganosa nas hostes do velho JC do que ser confundido com a patuléia que se compraz em assistir detestabilidades imediatas como O Segredo, pacote completo de hipocrisia e charlatanismo barato em formatos livro e filme.

Este mesmo universo de facilidades da nova era é atacado por Hornby em uma das suas frentes narrativas em Como Ser Legal. O foco desta linha é BoasNovas, um sujeito que adquire poderes sobrenaturais de cura após ingerir um criativo coquetel de drogas químicas em uma festa eletrônica. Hornby brinca muito com o personagem, permitindo apenas uma estreita faixa de rejeição por parte do leitor. Quando as bizarrices tornam-se mais amplas, ele ainda tem o recurso de nos iludir com a percepção de que é a visão de Katie que nos leva a denegrir a imagem do curandeiro de mãos quentes.

Este livro é um salto arriscado para Hornby. Em lugar dos adolescentes envelhecidos e semi-funcionais de seus livros anteriores, Alta Fidelidade e Um Grande Garoto, Hornby conta com a adulta entediada e fracassada Katie Carr. Um ponto de estranheza se instala neste ponto: apesar de sua natureza, Katie é o vetor para diálogos mordazes e cortantes, carregados de prosa pop. Quase como se fosse algum dos antigos protagonistas de Hornby.

A sensação passa logo. Talvez porque pensemos que ela pode realmente falar como um fracassado preso em um universo de referências adolescentes, Talvez porque nossa visão do inglês médio não seja muito acurada. Talvez porque queiramos que a protagonista de um drama de fracasso possa se divertir emitindo chistes e julgamentos divertidos.

Passamos a conviver com Katie, sua família, seus amigos de conveniência e com o universo louco em que seu marido mergulha logo após ser interpelado diretamente ao divórcio. Logo o universo do subúrbio inglês se revela palco de um enredo viável, e este escriba se sente mais preparado para ambientar piadas de ingleses. Esta habilidade não deve, no frigir dos ovos, granjear grandes distinções sociais, mas consigo me realizar com o pensamento de que ela representa um passo significativo no crescimento espiritual.

Ainda acho que a literatura de Hornby, assim como os seriados televisivos, não sobrevive ao tempo, exceto em livros e coletâneas sobre cultura pop, de repente alguma tese revivalista em alguma universidade modernosa. Ser divertido não é lá um pecado tão grande, mas as facilidades do estilo Hornby de tiradas rápidas levam ao diminutivo deste adjetivo. Desconheço escritores que tenham sobrevivido à pecha de “divertidinho”.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Nick Hornby: Como Ser Legal

  1. Pingback: John Updike: S. « sinestesia

  2. Pingback: Stephen Frears: High Fidelity « sinestesia

  3. guaxi disse:

    gilvas, o pentelho incansável.

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