Alan Reisnais: Medos Privados em Lugares Públicos

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Estranha-se, a princípio, o estilo de câmera de Reinais em Coeurs, seu filme mais recente. Os cortes são rápidos, e, mais de uma vez, desajeitados. A trilha segue de perto esta tendência, soando intrometida, como se a regesse uma mão pesada.

A sensação logo deixa a sala de projeção, embora ainda reste a imposição de cenários e a sustentação pelo diálogo; a transposição do teatro para o cinema tem seus obstáculos.

Da marcação forte entre as cenas, surge, todavia, um filme envolvente. Firmemente dirigidos, os atores fornecem espetáculos mais do que convincentes; eles nos fazem acreditar em sua arte. André Dussollier sempre será um dos meus favoritos, assim como Sabine Azéma. Resnais já havia trabalhado com Lambert Wilson e Pierre Arditi em Amores Parisienses, e talvez sejam deles os personagens mais parecidos com os respectivos do filme anterior.

Coeurs se presta, de todo, à reflexão. Sua introspecção se enlaça nas tramas, mesmo quando a câmera voa, como que a esmo, por sobre as cenas de interiores, criando uma claustrofobia em quartos de topo aberto.

Mark Snow, de repente, é o nome perfeito para criar a trilha. Numa Paris de neve contínua, seus rococós envoltórios caem perfeitamente. Tal é o espírito que cada cena passa: diversos dramas humanos passados em ambientes comuns, que se fazem kitsch pela desolação.

As tramas de Resnais possuem duas pontas, e oscilam graciosas, sem nunca encontrar as terceiras. Ele se apropria da proximidade gelada de que os seres urbanos compartilham, tecendo considerações pela observação metódica de suas mentiras, suas promessas, suas mesquinharias, sem, efetivamente, necessitar invadir as camadas sobrepostas de tranqueiras escondidas.

Resnais se despede com silêncios e planos em contraste. Nós seguimos pelos corredores.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Alan Reisnais: Medos Privados em Lugares Públicos

  1. ox disse:

    nossa, esse cartaz do filme tá trash. ainda bem que só o vi depois de ter assistido…

    cara, gostei do filme! o foda é que eu fui assistir sozinho num dia em que eu tava me sentindo muito sozinho! quase morro quando o filme acabou com todo mundo sozinho! 😦

    bom, mas já estou recuperado! 😀

    abraço!

  2. Nanda disse:

    Não importa o que você diga, eu nunca veria um filme com essa capa de musical natalino.

    A propósito, encontrei um complemento seu em livros: http://www.polzonoff.com.br

    beijos

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