Bernard-Henri Lévy: O Diabo na Cabeça

a capa original é tocha!

Bernard-Henri Lévy é uma pessoa sincera: cada página de O Diabo na Cabeça traz algum matiz de conservadorismo em si. Isto é um problema? Para mim, não. Fico em dúvida se é o mundo ao meu redor, ou se é minha percepção dele, mas já não enxergo campos tão claros, divididos em times progressistas e conservadores. As combinações políticas exercitadas até os anos oitenta, e o cinismo subseqüente tiraram qualquer divisa clara entre as facções, que sobrevivem como piadas retrógradas. Os militantes de ambos os lados podem berrar à vontade, e eu mesmo tenho a consciência do ditado que diz que “A tática mais eficiente do Diabo é provar que ele não existe”.

Misticismos à parte, e eles mal se esboçam nas páginas de O Diabo na Cabeça, Lévy se esmera em entregar uma trama interessante em um formato esforçado. O romance possui a figura do organizador, e este compila dados em formas diversas: depoimentos, cartas, o diário da mãe. Este enfoque carrega o romance com uma autenticidade verossímil. O conjunto do material se propõe a contar a vida de Benjamin C., fruto de sua era dilacerada.

Nascido sob o espectro da invasão alemã à França, ele convive de forma íntima com colaboracionistas, resistentes e coniventes. Depois desta formação, a percepção súbita de uma verdade por demais desagradável dispara seus mecanismos internos de revolta, e ele parte para participações de viés romântico em diversos movimentos revolucionários.

Lévy conta tudo com o distanciamento que lhe dá o formato do romance, e não faz feio. A trama prende a atenção, possui viradas e revelações intrigantes. As diferentes visões se apropriam da época que descrevem com firmeza, contraindo e expandindo a escala conforme a necessidade de maior ou menor definição.

A fruição estética, se não é revolucionária ou surpreendente, faz-se bem acompanhada de uma visão orgânica de vários momentos e movimentos que reagiram aos ditames dos empreendedores da Guerra Fria. Apesar de carimbar sua ideologia em todas as páginas, Lévy é um observador cuidadoso, e suas páginas, não raro, transportam eficientemente o leitor para dentro da época retratada. A edição que eu adquiri tem uma capa das menos inspiradas, com projeto visual oitentista de gosto duvidoso, mas o conteúdo vale a pena.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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