Carl Sagan: O Mundo Assombrado pelos Demônios

Carl Sagan é um homem sensato, ponderado, ou, pelo menos, foi a imagem que me passaram os dois livros de sua autoria que chegaram em minhas mãos. O primeiro foi Pequeno Ponto Azul, libelo de um cientista tomado de amores por seu universo, e ciente da miudez humana diante do cosmo.

Neste segundo, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Sagan continua apaixonado, mas parece ter perdido um tanto daquela paciência de antes. E como poderia ser diferente? Como um espírito lúcido poderia sentir-se bem em um mundo que chama novamente suas trevas obscurantistas para si?

Os primeiros capítulos servem justamente para desmistificar. Sagan tem munição. Derruba espaçonaves alienígenas, destroça terapeutas, avacalha astrólogos, exorciza canalizadores, o homem é incansável. Finda a primeira saraivada, entrega-nos um conjunto simples de técnicas para detecção de mentiras, e segue divulgando a ciência como uma forma de iluminar as sombras que nos cercam.

Alguns pontos são irônicos. Sagan defende os nerds, por exemplo. Entretanto, os nerds atuais tendem a devorar misticismo no formato de séries de televisão com temática pseudo-científica, como Arquivo X. Como antigo espectador da série, posso garantir que a ciência passa longe de Mulder, o garotão que “quer acreditar”.

Acreditar é uma bobagem; as coisas são, ou não são. O restante é auto-engano, são miragens para alimentar nossas frustrações e nossos medos. Se é necessário acreditar, então não resiste a um exame adequado, como nos ensina o capítulo do dragão da garagem.

Na última parte do livro, Sagan parte para o ataque. A educação é o único caminho, e ela precisa vir todos os pontos possíveis. As escolas de hoje precisam ensinar até aquele óbvio das relações, o que meus pais me ensinaram quando eu nem sonhava em ter costeletas.

A ciência é irmã da democracia, e seus princípios são os mesmos. Hoje mesmo tive de aturar o disparate de um colega declarando considerar o governo militar, que assolou o Brasil de 64 até meados dos oitenta, “o melhor governo que já tivemos”. Pensando eu estar diante de um abilolado que simplesmente abomina esquerdismos baratos, lancei-me ao benefício da dúvida, para vê-lo dizer, logo em seguida, “que a idade média não foi tão ruim em termos de ciência”. Lamentável ouvir isso de pessoas formadas em universidade federais de altíssima qualidade.

Sagan não separa democracia de ciência. O cientista é curioso, e a curiosidade traz o questionamento, cuja liberdade é a base da democracia. A mensagem é clara: “Somos livres pelo conhecimento”, por mais que o seu guru particular diga que a fé é o que realmente interessa. Sagan nos abre os olhos, e nos encanta com nosso universo elegante em sua sinuosa e multi-facetada simplicidade.

Este escriba é altamente influenciável, e este livro do Sagan deixou sua marca. Meu organismo criou uma sirene interior, e ela dispara à menor menção de certas palavras e expressões crédulas. É um dispositivo interessante, e ajuda em diversos momentos. O problema é que o mundo anda lotado de gurus e de seus seguidores, e pouquíssimas conversas escapam de derrapadas no universo místico.

Façamos um exercício simples. Quantas vezes tu achas que minha sirene mental contra charlatanismo dispararia diante das seguintes frases:

a. “Os alienígenas pousaram em Roswell, e deram tecnologia aos humanos”;
b. “Meu terapeuta receitou florais para melhorar meu humor, mas eu acho que devo orientar adequadamente meus móveis.”;
c. “Os lugares que os gatos escolhem para dormir possuem energias negativas.”;
d. “Isto é coisa típica de cancerianos.”.

Caramba, esta última eu escuto desde a minha adolescência. Respostas na semana que vem! Mandem suas frases para análise!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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24 respostas para Carl Sagan: O Mundo Assombrado pelos Demônios

  1. Ian disse:

    “d. “Isto é coisa típica de cancerianos.”.”

    E essa frase é típica de quem não conhece nada do assunto. Como o teu amiguinho Carl Sagan – que, aliás, ele próprio falhou num dos princípios necessários aos cientistas ali em cima (“O cientista é curioso, e a curiosidade traz o questionamento, cuja liberdade é a base da democracia.”). Entre essas outras disciplinas místicas que ele ataca, eu não posso falar muito, porém, quanto à Astrologia, Gilvan, posso te garantir que ela tem um fundamento, sim. O problema é que 99% dos detratores dela falham naquele preceito que já citamos ali em cima. Eles nem sequer estudaram o assunto direito, e simplesmente emitem uma opinião com base em nada. E ela ganha cara de “verdade” simplesmente porque um cientista oligóide e desonesto a emitiu.

    Aliás, eu acho a Ciência, do jeito que é praticada agora, justamente uma antítese à democracia, além de que querem nos deixar mais presos à “matrix” ainda, ao nosso universo limitado e medíocre. Nessas “pseudo-ciências”, pelo menos, tu tens o direito de “acreditar” nelas ou não (isso, claro, se a pessoa é uma preguiçosa mental e ainda acha que essas coisas é questão de “acreditar ou não”). Já o que a Ciência diz, em geral, é imposto goela abaixo como uma verdade absoluta. Aliás: tu lembras como, há no máximo 15 anos atrás, esse povo tratava a Acupuntura? Pois bem, agora, ela finalmente foi reconhecida por esse pessoal.

    Abração!

    • incredulo disse:

      a ciencia é imposta guela abaixo? teses cientificas sao refutadas o tempo todo, a discussão mais rica e aberta que existe é dentro da ciencia, as teorias cientificas passam por um processo rigoroso antes de serem aceitas, leia o livro de sagan ai antes de sair falando qualquer coisa. voce defendeu ai a astrologia, mas qual é o fundamento por tras dela? quem detem esse conhecimento? acho que este é muito mais imposto guela abaixo do que a ciencia.
      voce é apenas mais um credulo com medo da verdade

      • gilvas disse:

        liga não, incredulo, tem uma tropa que adora criar polêmica barata, defender posições absurdas, só para chamar a atenção. ou, como diria o cazuza, “nadar contra a corrente só para se exercitar” ou coisa assim.

      • Ian disse:

        Ela é rica e aberta se seguir os dogmas científicos. Leia um livro chamado “Em Defesa da Astrologia”, e procure saber sobre o caso CSI-COP – sTARBABY. Antes de me propor que leia o livro do Sagan, devia não seguir o exemplo dele e ler sobre um assunto que pretende ser contra, antes de tudo. E você está falando em “verdade”? Então, teu discurso é contraditório, pois verdade implica dogmas (aliás, não é essa palavrinha que os cientificistas dizem que não existe em ciência?). E não, eu sou um estudioso de um assunto, diferentemente de você, que é crédulo das “verdades” alheias.

      • Ian disse:

        E, Gilvan, defender uma posição chamada de “absurda” pelo status quo pra mim é menos pior do que atacar uma posição sem realmente conhecer sobre ela, como parece ser o teu caso.

      • gilvas disse:

        você está aplicando a falácia do bule voador, ou seja, eu sou um adepto de uma dada linha de pensamento, e você está solicitando que eu me disponha a provar que você, adepto de outra, está errado. de boa, eu tenho mais o que fazer do que provar que uma inverdade não é uma verdade. sou um cientista, e vou falar sobre ciência e sobre como as trevas da ignorância obscurantista ameaçam a democracia e o estado laico, sim.

      • Ian disse:

        Não estou aplicando falácia de bule voador coisa alguma (poupe-me dos teus pseudo-intelectualismos, por favor) como também não estou exigindo que você me prove nada, nem errado, nem certo. Eu apenas estou dizendo que tu precisas estar melhor embasado para criticar algo – que, pelo teu comentário final, do “coisa de canceriano”, noto que não tens nenhum conhecimento a respeito.

        “sou um cientista, e vou falar sobre ciência e sobre como as trevas da ignorância obscurantista ameaçam a democracia e o estado laico, sim.”

        Falácia do argumento non-sequitur. A Astrologia não possui relação alguma com “ameaçar o estado laico”, inclusive, porque ela não pretende ser uma religião, nem ser a verdade acima de outras. Agora, creio que tu, como “cientista” deveria ter uma mente mais aberta e investigativa em vez de criticar assuntos que desconheces com base no que “cientistas” que quiçá investigaram o tema menos ainda do que tu dizem ser a “verdade” – o que, de novo, implica em dogma. Mesmo que no final tu vás chegar à conclusão de que realmente aquilo tudo é uma bobagem. Porém, só pelas coisas que vi tu falares sobre o tema, no texto, eu sei que tu sabes até menos do que um Walter Mercado da vida.

        Vejo que no final, pensar que apenas porque cientistas dizem que a verdade é assim e assado é mais ou menos como uma pessoa que lê a Veja e que pensa que a verdade está toda naquelas páginas. Eu sei que tu odeias a Veja, mas tua atitude é a mesma de um leitor dela, quando os assuntos são outros, sorry.

      • gilvas disse:

        deixe-me ver: a ciência trouxe tecnologias fantásticas, que modificaram nosso modo de vida, controlaram as doenças, permitiram que a raça humana se expandisse para todas as regiões do globo e além dele, está diminuindo fortemente os preconceitos, aumentando os direitos das mulheres, entendendo como o universo foi formado, permitindo que você vá a qualquer lugar do mundo em algumas horas, prevendo o clima cada vez com mais exatidão, e por aí vai.

        me apresente apenas um único avanço precognizado pela astrologia, e quem sabe esta conversa tem futuro.

      • Ian disse:

        Bom, o que é possível ver é que tua visão sobre a ciência chega a ser infantil, afinal, coloca-a num maniqueísmo, onde ela é somente boa e só fez coisas boas pela humanidade, como se fosse uma salvadora da humanidade – esquecendo-se que ela também criou inúmeros métodos de destruição da própria humanidade. Além disso, é uma visão falaciosa, ao supor que ela “aumentou os direitos das mulheres”. Uma pessoa cientificamente madura é aquela que sabe que ela é apenas uma ferramenta, não é salvação, não é iluminação, e só diz respeito ao mundo físico – o que torna uma idiotice inclusive compará-la com religião, gerando uma falsa dicotomia “ciência X religião”, onde tudo o que não é ciência necessariamente é falso ou é “religião e misticismo”.

        Porém, essa não é a questão que tentei levantar, e tu estás tentando fazer uma estratégica inversão de planos, ao tentar comparar a Astrologia com a “Ciência” apenas para mascarar o teu parco conhecimento sobre um assunto que notadamente não dominas – que fica provado ao supor que a Astrologia deveria “precognizar invenções”, como se esse fosse o papel dela – ou seja, tua visão sobre ela é baseada em uma falácia de espantalho, e não numa investigação imparcial, acurada e apropriada sobre o tema. Estás apenas te baseando na tua “fé” sobre o assunto, sobre o que “achas” que a Astrologia é ou deveria ser.

        Enfim, não acho que essa discussão realmente irá muito longe, tendo em vista a tua atitude de fé sobre o assunto, e não a de um cientista verdadeiramente, como dizes ser – isto é, aquele que INVESTIGA algo antes de fazer julgamentos como os teus, que são só pré-julgamentos baseados em ignorância. Por isso, o meu ponto aqui é apenas apontar a tua ignorância e preconceito em relação a um assunto que claramente não dominas e o que sabes sobre ele é sofrível, então, te recomendo apenas que te informes mais sobre o que vais falar, porque de cego guiando cego (como o Sagan) e de “opiniões de especialistas” nada fundamentadas esse mundo está cheio.

      • gilvas disse:

        você está aplicando a falácia do bule voador. passar bem.

      • Ian disse:

        “você está aplicando a falácia do bule voador, ou seja, eu sou um adepto de uma dada linha de pensamento, e você está solicitando que eu me disponha a provar que você, adepto de outra, está errado.”

        Não, eu estou esperando você me mostrar o que você sabe sobre Astrologia, porém, está apenas insistindo na atitude anti-científica de falar sobre o que não conhece – o que também é uma forma de desonestidade intelectual. Se tivesse estudado um pouquinho do assunto, saberia que existem 3 formas a mais de abordar a Astrologia que não a abordagem causal direta – inclusive, a de interpretação simbólica, a partir dos arquétipos do inconsciente coletivo e do pessoal, que é onde reside o grande valor dela. Em compensação você cometeu pelo menos uma de espantalho, outra de inversão de planos, outra de falsa dicotomia. A questão é que você continua a falar cheio de “opiniões” sobre um tema que não conhece e não quer admitir isso. Não fale daquilo que você não conhece.

    • Se o Tio Olavão diz que astrologia é um conhecimento válido, ele acredita. Se o ‘bom velhinho’ mandar se jogar da ponte, ele se joga.

      E como é bonito falar palavras em latim, né?

  2. david neto disse:

    “Acreditar é uma bobagem; as coisas são, ou não são. O restante é auto-engano, são miragens para alimentar nossas frustrações e nossos medos.”

    posso ter entendido errado a finalidade da frase acima, mas, longe de querer imbuir de mistica o método científico (o qual o próprio Sagan diz ser “a forma de iluminar as coisas”, pelo que falas aqui), ele depende sim de um pouco de “crença”. não no sentido religioso.

    para formular uma hipótese (parte constituinte de uma pesquisa que siga o metodo cientifico), e principalmente aquelas que confrontem leis e teorias, é preciso sim, por vezes, um pouco de crença. Claro, depois o cidadão passará por toda uma pesquisa, a partir da qual então poderá dizer que “pode ser, ou não pode ser” (afinal ciência não diz que “é”, diz que “não não é”, até que prove-se que “não é”)

    não estou ignorando aqui também todo o procedimento anterior à hipótese, que exige embasamento em leis e teorias + fenômenos, ou fatos.
    mas talvez o que tenha faltado ao Mulder, para legitimar sua “vontade de acreditar”, segundo a visão de Sagan, era trazer um embasamento teórico para os fenômenos que ele presenciava

    • gilvas disse:

      david, “acreditar” é “dar crédito”. “ter crença em algo” talvez possa ser encurtado como “crer em algo”. assim, “dar crédito” continua sendo uma bobagem; ou a coisa funciona ou não funciona.

      por outro lado, o cara tem de crer na sua hipótese, ou não correrá atrás das provas para transformá-las em verdade. o cientista tem de ser, como diz uma palavra da moda, “resiliente”, ou, como diriam seus detratores, “teimoso”.

  3. ian disse:

    Ah, pra complementar: tens o Mulder e a Scully dentro de ti, ao mesmo tempo.

  4. ian disse:

    Haha! Acho que és um cara com um enorme dualismo…

    Abraço!!!

  5. Guto disse:

    Ha, acabei de ler esse livro 2 semanas atras…
    Muito bom, principalmente os argumentos que ele usa para desmascarar todas as farsas a nossa volta.
    Leitura recomendada, com certeza.

    • Guto disse:

      Por falar nisso, vale a pena perder um tempo e assistir a serie Cosmos dele..
      Depois de uns 20 e poucos anos, ainda e completamente impressionante.

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  9. Simone Maia disse:

    Acho que sua sirene disparou todas as vezes… Apesar de que estou em dúvida quanto à afirmação (a).
    Enfim, ótimas dicas de leitura! Vou procurar esses livros (especialmente o último) para nutrir meu ceticismo.

    Abraços

  10. Christian disse:

    Eu já ouvi essas frases sobre a ciência na Idade Média e sobre o governo militar. Eu tendo a pensar no seguinte:

    Nem tão lá nem tão cá. Certamente a ciência não foi uma maravilha na Idade Média, o que não a torna uma “Idade de Trevas”, como muitos dizem. Analogamente, o governo militar foi muito ruim sob muitos aspectos e muito bom sob outros. Bater o martelo significa ter clareza do que significam “não tão ruim em termos de ciência” e “o melhor governo que já tivemos”.

    Participa disso o estabelecimento de termos e de critérios — o que me parece ser algo muito científico.

    Quando surgem as frases feitas, o ideal é buscar ter certeza sobre as bases e os pressupostos delas. A que, afinal, esse pessoal se refere? A que tipo de qualidade governamental e excelência científica eles se referem?

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