Ricardo Van Steen: Noel Poeta da Vila

A sessão dupla no cinema pode causar algumas relativizações prejudiciais à percepção imparcial das películas sob análise. A coisa fica mais grave quando se assistiu primeiro a Tropa de Elite, e o filme relativizado é uma bomba como Noel, Poeta da Vila.

O filme de José Padilha é um arrasa-quarteirão: temática explosiva e polêmica, direção tensa e robusta, roteiro redondo e plenamente funcional, atuações marcantes. É preciso ser um filme muito fodão para ser visto depois de Tropa de Elite. Noel, Poeta da Vila, sabendo que a parada vai ser dura, nem mesmo tenta direito.

Ricardo Van Steen, aparentemente, tinha poucas fichas, e apostou onde achou que deveria. Acertou na caracterização de Rafael Raposo, que incorpora o artista em diversos momentos, parecendo ter comparecido a algum terreiro em busca dos trejeitos mais adequados ao retratado. Entretanto, em alguns momentos, parece se esquecer do intento inicial, e os relevos da personagem se achatam em uma leitura burocrática. Van Steen também deu atenção à  fotografia, que possui pelo menos uma dúzia de enquadramentos memoráveis.

De resto, é assustador como uma história tão boa quanto a de Noel Rosa, do ní­vel da narrada na biografia de Ray Charles, seja o único motor por trás deste filme. Tamanha é a pilha de empecilhos, que Rosa deve ter ficado decepcionado por fazerem tão pouco na reprodução de suas, não poucas, traquinagens. Imagina: o cara se esforça em fazer da sua vida uma seqüência de besteiras entremeadas de momentos geniais, e o diretor não tem as manhas de usar isso direito? Lamentável.

Logo de cara surge o calcanhar de Aquiles: as interpretações sofrem de um mal tí­pico do cinema nacional, que a empostação excessiva nos diálogos. Pelo menos metade do elenco estufa o peito, faz paradinhas dramáticas, espera a fala do outro terminar; como diria um outro resenhista internético, “mais artificial do que tang de cerveja”. Eu culparia antes o diretor do que os atores. Diagnostiquei isto observando Fábio Lago, o Baiano de Tropa de Elite, e que participa também de Poeta da Vila, mostrando interpretação bastante inferior no segundo filme. Se tu não acreditas, basta eu te dizer que o Supla nem parecia tão ruim neste filme, apesar do Mario Lago ter dado uma volta no caixão para cada fala do Papito.

E que dizer das dublagens das canções? Parece que a faixa de som foi mixada ao filme por duas ostras bêbadas, que brigaram antes de terminar o trabalho.

O Poeta da Vila vale pela ambientação da vida de um dos nossos maiores gênios, valor que quase soçobra diante da iniqüidade de certas passagens. Mas, se tu chegou em casa com vontade de ouvir um disco dele, já valeu a pena a entrada para o cinema.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Ricardo Van Steen: Noel Poeta da Vila

  1. maricota disse:

    “duas ostras bêbadas”

    ok. isso eu nunca tinha ouvido

    beijo

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