Jorge

A foto estava na Madre Benvenuta, quase na altura das concessionárias francesas. Xerox. Representado, um cão beagle. Perdido, diz o anúncio.

Penso no que faria se o achasse. Quase alucino que o vejo, tamanho o desconforto. Sinto uma tristeza absurda, de uma ordem distinta daquela que sinto ao ver cachorros abandonados. Sei exatamente o que eu faria. Como chamá-lo, como retê-lo, como concatenar a ação de retê-lo à  ação de chamar seus tutores. Construo uma imagem de como seria quando eles chegassem, e os detalhes são clarí­ssimos.

Jorge aparece pela sua lateral direita, a quarenta e cinco graus. Olha para trás, como se fosse embora. Não consigo dizer se foi uma tática dos anunciantes, mas aumentou deveras o efeito de minha melancolia. Jorge aparenta estar indo embora, e isso dói.

Tenho pouca esperança de que ele seja achado. Gostaria de acreditar em um mundo onde Jorge encontrasse uma gangue canina durona com um chefe secretamente erudito, que apreciaria a companhia de Jorge, um aristocrata viajado e bem lido. Jorge estaria protegido até o encontro acidental com sua família, sendo visto pelo filho de nove anos, que se ajoelharia junto dele, arrependendo-se interiormente por seus pecadilhos reais ou imaginados. Jorge é uma faceta da redenção aos olhos do rapazote. A gangue se afastaria devagar, e os olhos de Jorge lançariam um silencioso agradecimento pela acolhida, enquanto o chefe mafioso peludo piscaria quase imperceptivelmente, logo aplicando um belo tapão em seu auxiliar mais querido e mais estúpido, é claro. Nada como a manutenção da fama de mau.

Devaneio. Neste mundo, não é possí­vel encontrar o herói, o cara bom. Tanya Donelly canta sobre isso de uma forma dolorosamente real, e deseja que o céu se encha de peixes. Acreditará que a natureza humana só se representa em surrealismos dignos de Dali. O romantismo se foi das ruas de Florianópolis, e nada resta que possa alimentar uma fantasia nostálgica.

Apesar disso, estou torcendo pelo Jorge. Boa Sorte, cara!

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Bichos e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Jorge

  1. maricota disse:

    Penso que se poderia ter anotado o telefone da família para o acaso de veres o Jorge. Ou, dependendo do tamanho da obsessão (que não deve ser vista como negativa), para perguntar se já o acharam. Esta última ação poderia ser desastrosa caso a resposta fosse negativa, pois geraria uma expectativa de que tu estivesse trazendo notícias dele… Sendo assim, parece egoísta demais deixar a família aflita por segundos ao ligar só pra saber se já o acharam e assim ficarmos satisfeitos, tranquilos e felizes. Salve Jorge! 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s