Michael Ondaatje: Bandeiras Pálidas

Michael Ondaatje tem um dom. Talvez seja o único. Talvez. Este dom, entretanto, poderia encher de inveja dezenas de aspirantes a escritores. Inclusive alguns que publicaram livros. Encontro-me em apuros tentando encontrar um nome para este dom, e duvido que consiga encontrá-lo até o final deste texto. Ou até o final desta semana. Ou até o final deste livro.

Fato é que Ondaatje escreveu mais de um romance onde a infusão de elementos incongruentes torna-se natural, daquele tipo de coisa que te faz pensar, depois de escrita, em como diabos ninguém pensou naquilo antes.

Bandeiras Pálidas, por exemplo, tem facetas de cultura pop. Facetas silenciosas, que se insinuam sob as páginas, extraindo sorrisos ao percebermos que estamos brincando de lembrar cenas de filmes ou trechos de músicas. Quase imperceptivelmente.

Assim ele faz com a situação política do Sri Lanka, com os hospitais lotados de feridos e suicidas, com os casamentos fracassados que pululam nas sociedades modernas, com os desterrados no estrangeiros, com os desterrados em sua própria terra, com os ascetas que transcendem as regras rígidas da ciência em sua ansiedade, com os espaços familiares esquisitos onde eu ou você crescemos. Ainda tens dúvida disso?

E o faz, o danado, com poesia. Diz-se, não raro, que certo escritor transita entre as fronteiras vazadas da poesia quando se dispõe à prosa. Bobagem. Ao ler este volume de Ondaatje, só posso acreditar que não sabem o que dizem, ou que banalizaram esta esquizofrenia ao confundi-la com o simples enxerto de linguagem abstrata ou onírica em meio à massa narrativa.

Ondaatje deixa seu recado, e alguns sorrisos, daqueles que você nem acreditava que um livro ainda poderia provocar em você.

Ah, Michael Ondaatje também escreveu O Paciente Inglês.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Michael Ondaatje: Bandeiras Pálidas

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