O Fantasma na Máquina

Décadas de Ficção Científica nos alimentaram com parábolas fantásticas e hiperbólicas, extrapolações que serviram a nós e a nossas gerações passadas como guias para percepções surpreendentes de nossa realidade contemporânea.

A Ficção Científica carrega em suas entranhas extravagantes a didática das revoluções efetivas, aquelas mais silenciosas, que conduzem as mentes através dos labirintos de saídas fáceis.

O estilo onde se sobressaíram Arthur C. Clarke e Isaac Assimov, entre outros, nos ensinou a questionar nosso cotidiano ao transformar o bizarro em outra forma de cotidiano.

Passado todo este tempo, e todas aquelas páginas, é estranho que ainda reste mistério, que exista sumo nesta laranja deliciosa, e que ela tenha nos pregado uma peça.

Depois de tantas aventuras, de tantos desenrolares surpreendentes, de tantas sondagens nas ambíguas rotas do cérebro, é de surpreender que a Ficção Científica não tenha utilizado sua argúcia para tirar o esconderijo o verdadeiro fantasma na máquina.

O sopro que nos sustenta, a chama que nos impele, a luz que vaza por nossos olhos curiosos, aquilo a que alguns chamam de alma, o que mais pode ser o fantasma na máquina?

Numa era em que se ultrapassa facilmente a antiga barreira dos trinta anos, são notáveis o tédio e a sensação de que algo se perdeu, Sim, algo se perdeu: nosso impulso reptiliano, nossa angústia hormonal, que nos leva de encontro ao nosso destino reprodutivo, ao carimbo renovado de nossas seqüências de DNA em novas unidades de carbono.

Pouco informam as histórias fantásticas sobre o que fazer quando pulamos para o outro lado da rampa. As células começam a decair, assim como os tecidos e outras estruturas, ainda que o homem não perceba de imediato seu destino, o único destino.

Feliz por ter vencido as angústias da adolescência e as batalhas pela entrada no mercado de trabalho, ele se posiciona no ponto que conquistou, e percebe que não há mais nada.

Certo, nem todos passam pela angústia existencial. Existem sucedâneos para o impulso hormonal, e pessoas podem passar muito bem alimentando suas complexas atividades químicas com estupefacientes: novelas, igrejas, seriados televisivos, jogos de futebol, associações de criação de passarinhos, terapias alternativas, compras, e por aí.

Entretanto, o que acontece à pessoa que percebe-se desmanchando, perdendo seu tônus, em todas as formas que observa? Que pode fazer o invasor além de empurrar a carcaça além dos domínios para os quais a Natureza a havia projetado? O fantasma quer continuar, desdenha do projeto algo simplista da Natureza. Ainda que não saiba a razão, quer viver dentro daquele espaço de carne a que se apegou tão bem, e que nem poderia deixar, não, não poderia deixar.

E seguimos, nos apegamos às lembranças, nos apegamos a funções, nos apegamos a papéis, nos propomos a construir castelos que não nos interessam realmente. O fantasma na máquina é um tanto patético em seus esforços. Não seria apenas o caso de deixar-se invadir pela paz, silenciosa e aconchegante? O fantasma assombra a máquina. E sofre.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Filosofia de Boteco. Bookmark o link permanente.

2 respostas para O Fantasma na Máquina

  1. Pingback: Ray Bradbury: As Crônicas Marcianas « sinestesia

  2. Pedro Rangel disse:

    Olá! Gostariamos de comunicar o lançamento da 2º Edição do Concurso Literário FC do B.

    O propósito que norteia o Concurso Literário FC do B, é o de incentivar e revelar talentos literários, além de apresentar um panorama da Ficção Científica Brasileira atual.

    Os contos selecionados farão parte da coletânea: FC do B – Ficção Científica Brasileira – Panorama 2008/2009.

    Maiores informações no site oficial: http://www.fcdob.com

    Obrigado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s