John Grogan: Marley e Eu

Ganhei um livro. Do tipo que eu só leio quando ganho. Confesso que posso sentir prazer na leitura de livros populares. Existe um histórico, e eu até desfilaria-o por aqui caso eu me lembrasse. Como eu não lembro, façam um exercício, e acreditem.

Marley e Eu, caso você seja um apreciador de animais de estimação, provavelmente foi uma das suas leituras de 2007. O estilo de John Grogan é qualquer nota, e não causa maiores decepções, desde que a expectativa inicial não seja alta. No meu caso, fiquei incomodado com os erros de uma tradução onde provavelmente a pressa foi a tônica. Numa segunda camada, é visível o caráter “linha de produção” do livro, contando com um público analfabeto funcional, do tipo que não se importa com as facetas sutis da concordância, e que não faz questão de elegância no texto.

Grogan é um retrato fiel de uma certa percepção que tenho dos norte-americanos no que tange à classe média de lá. São seres moles, sem muita percepção de suas origens, exceto por alguns cacoetes religiosos e uma convicção reprodutiva ainda assustadora.

Particularmente, não me preocupa mais que a classe média ianque continue a ocupar-se apenas com umbiguístico cotidiano. As outras classes, daquele e de outros países, não têm muito a dizer também, e temos mantido as engrenagens rodando de forma razoável. O que me incomoda é o alvo da narrativa.

Jack London é um cara admirável, do tipo que encantaria qualquer moleque com sangue nas veias. London é um escritor de ficção, e ele embasa sua obra em suas vivências, como eu calculo que faria qualquer escritor. Esta é a conexão normal entre criador e criatura, e não a literatura confessional derivativa de blogs que engorda volumes de 250 páginas por aí.

A partir do momento que a população se desloca para o universo urbano em massa, também ocorre uma avassaladora tomada das áreas selvagens pelo turismo mais restaqüera de que se tem notícia. Neste panorama de acomodação, restam poucos desbravadores, daqueles que estariam dispostos a alçar vôo em experiências arriscadas e excêntricas. Sem elas, a ficção perde uma artéria importante, e padece.

Entram em cena romances sobre o cotidiano bobo de pessoas bobas. Pequenas epifanias domésticas se elevam aos píncaros em páginas sem perigos efetivos. As pessoas não querem mais saber de um mundo com sangue ou pele queimada. Amputações, nem pensar. Dilemas grandiosos, batalhas políticas, luta por ideais? Deus, nossos antepassados não lutaram por séculos para nos garantir que nossa vida só seria abalada pela queima de eletrodomésticos?

Este receio tem duas camadas. A primeira está descrita aí em cima, e a segunda se forma em meus pensamentos como a visão de uma família genérica que leva uma vida ainda mais medíocre do que a de Grogan, e que considera as aventuras dele como, bem, aventuras. “E prá nós dois, sair de casa já é se aventurar”.

John Grogan tem culpa? Improvável. Acusá-lo de fornecer suas páginas a leitores ávidos por leitura descartável seria de uma hipocrisia que só encontra paralelo no apoio à prisão de prostitutas de rua, por exemplo.

Grogan é ético com seu cachorro: muitos papais teriam lançado um cachorro problemático como Marley à rua sem maiores fricotes. Grogan entrega um livro sobre cachorros, e ele vem com mais texto do que fotos, e estas últimas são fotos amadoras, caseiras, e mais dão uma noção do cachorro que é  Marley do que fornecem imagens fofinhas para gente sem imaginação. Grogan escreve com o nível de funcionalidade imediata que deve ser esperado de um profissional do jornalismo, e não de um escritor, e olhe que nem estou falando daquele perfil romântico do escritor, conforme traçado por Rilke.

Marley e eu poderia ser mais divertido, mas não vai realmente te fazer mal. Convenhamos, vivemos em uma era onde existem extremamente nocivos ao alcance de todos, vide O Segredo. Deste ponto de vista, Marley e Eu pode ser visto como uma pérola de despretensão. Leia entre dois livros de verdade, e você não vai ter problemas de consciência.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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6 respostas para John Grogan: Marley e Eu

  1. Ian disse:

    Hah! E eu achando que esse filme/livro iria te sensibilizar! rs

  2. yuri da cunha silva machado disse:

    gostei muito do livro, mas ele era desse jeito mesmo?

  3. Vanderleia disse:

    O livro é ótimo, escrito de uma forma simples e que não cansa o leitor, em compesação este site… prefiro não comentar, afinal de contas opinião é opinião. o livro li até o final, esta página não consegui sair da primeira frase.

  4. Luciane disse:

    Eu simplesmente amo ler!!Leio de tudo mesmo,mas me diverti e chorei muito lendo Marley e eu!Com certeza é um livro despretensioso e de fácil leitura.
    Não é um livro tipo Shakespeare,mas convenhamos….se só existissem livros eurditos o mundo seria extremamente chato,né!!
    Não gostei das criticas metidas a intelectuais desse site!

  5. KARYNE OSTENBERG disse:

    meu comentário sobre este livro é:eu sou uma garota de 13 anos e amop ler é de família ,e o q posso diser é q é um livro emocionante! q me fes chorar os tres ultimos capitúlos!!!mas eu chorei doloridamente comoo se algo que eu amasse estivesse acabado de morrer.Realmente um cão de um livro que eu tinha me apaixonado havia morrido1 é …! tudo bem eu sou uma garota melosa …chorona….mais certamente nao foi só eu q me emocionei ao ler este livro.

    que o autor nao me leve a mal …..mais…… eu odiei quando ele decide que o Marley não fará a cirurgia e e decide sedalo.e quando ele vai se despedir o cão já está sedado! eu achei aquilo monstruosidade poxa ele nao poderia só faser acirurgia e dar tudo certo?

    desejo ser escritora quando me formar,e espero que meus livros sejam tao boms quanto os de Grogan.achei uma boa escolha lugar de enterrar Marley…embaixo das árvores que eles desceram juntos pelo escorregador, eu soube do livro por uma propagaqnda em uma revista!esta recortando ums papéis evi!!!!MARLEY E EU!A história e o amor ao lado d pior cão do mundo1 eu odiava cães1por q eu tinha um q eu achava q era o pior cão do mundo.quando li o livro passei amar cães.

    com certesa é um ótimo livro!

    leiam!!!!!!!

    karyne o.oliveira

    obs….John amei seu livro!!!!!!!!!!!

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