Wado e o Império dos Cantores Fanhos

Wado sofre um dilema cruel: é um artista mais falado do que ouvido. Eu explico: a despeito da infinidade de resenhas na imprensa indie brasileira, o músico não possui, pelos indicadores que eu observo, muita audiência. Quer um exemplo? Dá uma olhada no LastFM, e tu vais ver que Wado, apesar da música de excelente qualidade que produz, anda abaixo de trinta mil audições.

Existem outros fatores e outras medições, é claro, mas não se pode negar o fato de que Wado não penetrou, ainda, o mercado brasileiro além do gueto independente, este que mais fala do que ouve.

Wado, entretanto, não descansa, trabalha. Lançou um quarto disco excelente, seguindo a linha evolutiva clara traçada nos discos anteriores, onde cada lançamento supera o anterior, sem, no entanto, deixá-lo obsoleto. Terceiro Mundo Festivo traz a equação militância + samba + contemporaneidade ainda mais refinada. Notável a presença do piano, que lidera quase todas as melodias. Wado também arrisca algumas incursões na escatologia em Teta, e derrapa de leve no pieguismo Paulo Freire em Fortalece Aí. Lucrécia é uma crônica muito interessante. Musicalmente, o espectro de influências musicais fica mais solto do que nos discos anteriores. Em certos pontos dá para traçar um paralelo com o trabalho de Manu Chao, tanto pelo uso livre de ritmos e estilos, quanto pela necessidade de imprimir uma estética globalizada que milita pelos valores locais. Mais contemporâneo, impossível. Em outros, bolerão safado, como em Faz Me Rir. Tudo espontâneo, tudo fluido.

Todavia, este texto não foi feito para ser apenas uma resenha do disco novo do Wado, mas uma elucubração sobre uma faceta da música brasileira que sempre me fascinou: a do cantor fanho.

Wado é o cara, mas canta mal, apesar desta deficiência não atrapalhar em nada a sua proposta. Canta com o nariz, com a garganta, e tanto mais notável a deficiência quando um resultado excelente como o conseguido em Reforma Agrária do Ar, onde a voz de Wado é multiplicada e distorcida por efeitos eletrônicos, que se lançam vorazes sobre a base sonora chacoalhante.

Parece que não existe meio termo no Brasil: ou o cara tem uma voz empostada de cantor de AM, ou ele é fanho. Fala-se de Belchior, mas dele dá para falar. O caso mais célebre, e de que ninguém quer falar, é o João Gilberto. O baiano é incensado por toda a imprensa brasileira como o cara com a voz estudada, o canto falado, e mais um monte de estultices. Horror, horror: o cara canta mal demais, desanima até ouvintes trincados na anfetamina.

Podem chover cacos, mas, diabos, o Chico Buarque é fanho, por mais que mil reportagens da Bravo venham me dizer que não. Curiosamente, ele acaba sendo interpretado por cantoras de voz enorme, e o efeito fica bizarro. A influência de Buarque sobre Marcelo Camelo explica boa parte do desânimo de 4, canto do cisne da banda carioca Los Hermanos. Alguns aplaudirão, outros chorarão, e estes últimos vão se juntar ao séquito de Buarque. A menos que Camelo encare uma carreira solo. Ou no cinema: já notaram que o Daniel Day-Lewis está a cara do Camelo nas primeiras partes de O Sangue Negro?

Outro fanho famoso é Herbert Vianna, o que se configura como um capítulo do movimento punk no Brasil: se alguém que canta tão mal se dá bem, então até eu posso tentar! Herbert Vianna me fez voltar para a viola e para o banquinho! Mas nada de desespero: não vai tocar na rádio, não.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Wado e o Império dos Cantores Fanhos

  1. nanda disse:

    isso tudo me fez pensar que, talvez, o problema esteja no idioma.
    o português é fanho por natureza. onde tiver um ~ ou um nh, ai estará uma fonética nasalada atuante!

  2. Turnes disse:

    É isso aí Zé Pequeno!

  3. Zé Pequeno disse:

    Sinceramente, falar mal da voz de Wado, Chico e do Herbert é um insulto à sua própria incompetência. Quer perfeição? Vai ouvir Pavarotti, mané.

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