Arthur C. Clarke: 3001

As odisséias de Arthur C. Clarke pertencem à mesma classe que o Admirável Mundo Novo; são ambos livros de formação para o espírito crítico em um mundo cada vez mais entregue à superstição. Minha idade já está adiantada para que alguma formação ainda se faça possível, então leio Clarke apenas por prazer e admiração a suas idéias. Ele se encontra em um lugar semelhante ao de Carl Sagan em meu panteão de pensadores.

Literariamente, Clarke não acrescenta muito à genealogia do romance mundial. São antes sua imaginação e seu rigor os sustentáculos de suas páginas. Ele estrutura de forma eficiente suas histórias, mas falta a elas um ritmo mais marcado, uma alternância entre tensão e relaxamento. Este pode ser um aspecto negativo do imenso cuidado que Clarke tem ao sublinhar todas as passagens com o máximo de embasamento científico.

O rigor científico causa algum desconforto quando Clarke é tímido na descrição dos eventos que teriam se passado no milênio durante o qual Poole flutuou congelado pelo espaço. Como os eventos são vistos do ponto de vista de Poole, um ser que não consegue se adaptar ao bizarro futuro de sua espécie, existe salvação. Entretanto, fico curioso em saber como Clarke resolve em outros livros, quando não tem um narrador ancorado no passado conhecido.

Outro aspecto a considerar é a parte social: Clarke é um nerd, e não penso ser necessário aprofundar a conceituação. Nerds relacionam-se melhor com tópicos especializados e complexos do que com pessoas, aqueles seres tediosos e sem imaginação que a gente encontra aos batalhões pelas ruas. Talvez por conta dos relacionamentos restritos, Clarke é um escritor tímido de diálogos, e esquematiza qualquer tentativa de romance ou amizade.

Estes probleminhas incomodam o leitor em poucas passagens. No mais delas, existem momentos de tirar o fôlego. O contato com os seres de Europa, as passagens cotidianas no mundo mágico de mil anos depois, as peripécias dos colonos humanos: são vários os momentos em você tem de tirar os olhos da página, olhar para algum ponto distante, e lançar no universo imaginativo de Clarke.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Arthur C. Clarke: 3001

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