Playing With Food

Caso existisse uma ordem de prioridade entre as funções básicas na sobrevivência, alimentar-se provavelmente estaria em um possível terceiro lugar, logo após respirar e ingerir água. Existem controvérsias? Sem dúvida! Água e ar podem ser considerados alimentos por alguns, e não existe argumentação efetiva quanto a isso: trata-se de pura convenção.

Controvérsias à parte, comer apresenta polêmicas equivalentes às de seu pressuposto inverso, defecar. Santo Agostinho, parece, perdeu várias de suas noites sob as velas pensando em como diabos um deus a cuja imagem se parece o homem pode ser divino quando o primata em questão defeca. Uma das mais marcantes passagens de Kundera versa exatamente sobre o dilema apresentado entre Deus e a merda.

Conquanto a literatura e o vulgo se refestelem em relatos envolvendo o ato de defecar, deveria haver uma contraparte relativa ao alimentar-se. Vã ilusão! Histórias sobre fezes rendem facilmente risadinhas entre a platéia, enquanto as histórias sobre sobre comida não raro escorregam no quiabo cruel do politicamente correto. E não venha dizer que você não se incomodava com as guerras de comida durante os programas dos Trapalhões porque, bem, eu me incomodava, e gostaria que você se incomodasse.

Minha intenção, com este texto, era apenas escrever. Aliás, esta é a intenção de todo este espaço aqui. Como se eu não fosse falastrão o suficiente, imprimo estas palavras em bits e bytes, e largo aqui para que os incautos cibernautas nelas tropecem, e celebrem, caso possível, este registro de pedantismo.

Aqui, especificamente, era para começar uma série sobre manias alimentícias, ou relacionadas com a alimentação. Entretanto, eu me conheço bem, e vai ficar por este texto mesmo. A pretensão, no universo dos seres humanos normais, deixa as coisas pesadas, estraga toda a brincadeira. Então, às beterrabas!

Gosto da seção de saladas. Agrião, cenoura ralada, pimentão, tudo muito bom. Exceto coisas cozidas, onde vale a gloriosa exceção da vagem, este heróico quase-feijão. Abomináveis são aquelas rodelas de cenoura cozida, ou beterrabas cozidas e raladas. Nunca provei uma beterraba crua ralada, apesar de já ter testemunhado sua existência em buffets não exatamente recomendáveis.

Beterrabas são um dilema em minha existência, e na delas também, eu calculo. Na década de oitenta, graças ao Funaro e ao desabastecimento que seguiu-se ao seu plano miraculoso Cruzado, tive contato com açúcar de beterraba. É extrudado, parece com plástico bruto, daquele que se usa para fazer, uhm, coisas de plástico.

Beterrabas são tubérculos? Penso que não, dado que minha concepção mental de tubérculo envolve a existência massiva de carboidratos em seu interior. Batatas e mandiocas se aplicam a esta definição de forma exemplar. Beterrabas são verduras? Claro que não, são roxas, ou violáceas, ou sei lá que cor, mas que está em uma parte distante do verde no arco-íris.

Penso que as beterrabas, assim como suas amigas roxas, as beringelas, deveriam ser protegidas dos garfos, e serem alforriadas das plantações para serem,  bem, outra coisa. Beringelas ficam ótimas bem lustradas, e beterrabas são espertas, saberão se virar.

Outro aspecto alimentar é a civilidade. Alimentar-se no intervalo do almoço na empresa é uma coisa; alimentar-se no sábado à tarde, logo antes de descer para a praia, cercado de cachorros, é outra. Na segunda opção, são permitidos os alimentos potencializadores de acidentes devidos à baixa coordenação motora.

Milho verde, depois de cozido, é um deles. Não existe forma civilizada de comer milho verde. É um alimento criado para abrir as portas para a balbúrdia: pedaços minúsculos de cascas nos dentes, fios de cabelos vegetais pela roupa, e a tragédia mal mastigada que a badalhoca póstuma expõe.

Melancias também são deste time. Tem coisa melhor do que sentar na beira da calçada com  uma faca velha e uma melancia? Tu sentas ali, faz um corte bêbado na melancia, e puxa para fora aquele tesouro vermelho recheado de sementes projetáveis. Um pouco mais de habilidade, e você pode concentrar sementes na boca, e efetuar prodigiosos disparos contra animais domésticos distraídos. Experimente: são novas camadas de relacionamento surgindo.

Por fim, a bergamota: fruto peculiar por sua modularidade lúdica, a bergamota deixa cheiro forte nas mãos dos que a devoram. Isto não causa nenhum problema no supracitado sábado à tarde, mas experimente fazer isso durante o intervalo do almoço em um dia de expediente comum.

Teve um dia em que, pasmem, vi gomos de bergamota separados em uma bandeja do buffet, e pensei em como nada mais é sagrado. Penso o mesmo quando vejo melancias fatiadas e desprovidas de suas sementes. Este tipo de iniciativa só pode significar que o mundo caminha a passadas largas em direção ao abismo. Neste caso, que eu esteja comendo minha espiga de milho verde à beira do abismo, e não frango grelhado com macarrão frio.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Gastronomia e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Playing With Food

  1. Pingback: Missô « sinestesia

  2. chris disse:

    gilvan….mô filho. que é isso?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s