Manias pt. II

Determinados hábitos, entre os humanos, são repetidos à exaustão, transformando-se em comportamentos autônomos, tão arraigados ao ser que parecem-se com atos nativos, intrínsecos. As manias, caso houvessem pesquisas sistemáticas, poderiam ser classificadas de diversas formas, assumindo curvas distintas e sociologicamente relevantes quando confrontada a intensidade de suas manifestações versus variáveis idade, grupo social, envolvimento com o sexo oposto, opção política, e por aí vai.

Em certas pessoas, o cuidado com as manias beira formas elaboradas de obsessão. Nestes casos, não raro se observa que o conjunto de manias visa ser o sucedâneo de uma personalidade esmaecida ou mesmo ausente. O comportamento, tanto mais natural quanto menos consciente, origina filmes engraçadinhos e seriados em canais por assinatura, o que já define de forma bem palpável o nível de ameaça à sociedade como ela deveria existir.

Manias são melhor observadas nas outras pessoas. Neste aspecto, elas são como quase todas as outras coisas na vida. E, como tal, a observação de manias idênticas às nossas em um terceiro nos causa mais asco do que as manias endêmicas do sujeito. A identificação inconsciente, e subseqüente desaprovação, de nossos hábitos ranhetas é apenas mais uma ironia da natureza humana. Aliás, natureza humana é o bicho quando em um bom romance, mas um saco quando se manifesta em nosso vizinho, por exemplo.

Pessoalmente, procuro desenvolver manias justificadas por algum traço social inevitável. Um veio de manias em minha pessoa é justificado pela profissão que abracei. Dado que sou um autista em potencial, ou apenas atenuado, é perfeitamente aceitável que eu, por exemplo, use os grampos de roupa em uma seqüência padronizada de cores e materiais, correspondente a determinadas peças. De roupa, é claro!

Como todo ser humano, entretanto, eu também uso sorvete  na testa. Durante uma refeição, por exemplo, se ocorre algum acidente com o prato, é inviável fazer um novo prato. “Acidente” pode ser algo como um alagamento por refrigerante ou outro líquido estranho a pratos salgados. Caso eu não perca o apetite, no máximo conseguirei comer algum salgado de rodoviária, como um empanado ou um risoles. Um novo prato será feito apenas na próxima refeição. “Frescuras”, bradarão os exaltados, ao que responderei “Isso mesmo!”, sem titubear. Manias nos dão esta secreta e silenciosa sensação de integridade pessoal.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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