Kim Ki Duk: Fôlego

Kim Ki Duk já entra com o jogo ganho aqui neste espaço. O silêncio inusitado de seus protagonistas abre espaço para um mergulho radical num universo onde a imagem impera. Os enquadramentos, a partir daí, podem ser funcionais no âmbito do roteiro, ou apenas momentos de contemplação. Dá para comparar Kim Ki Duk, por seus crescendos esquisitos e ápices bizarros, com a banda islandesa Sigur Ros.

A escolha de situações extremas como mote de seus roteiros possibilita uma inserção inevitável do espectador dentro da narrativa, e, uma vez dentro, não existe resistência à fruição de momentos pouco convencionais. Este modus operandi abre novas fronteiras à apreciação estética.

Fôlego tem um casal fracassado, assim como o de Casa Vazia. Fôlego tem uma relação tempestuosa e fugaz, assim como Primavera. Fôlego tem um observador anônimo, que troca canais para o espectador e interfere em certas passagens, dando uma sensação de interação eletrônica invasiva e absolutamente alinhada com a moderna televisão.

Como em uma campânula de observação, postam-se personagens bem contornados. O casal, com sua filha pequena e seus segredos e suas frustrações banais, precisa de uma solução para um impasse. O condenado à morte, o que tenta o suicídio, uma ironia na raiz do próprio conceito. vira uma ferramenta nas mãos da protagonista. O microcosmo carcerário se abala pela presença dela: os ciúmes da mulherzinha da cela suscita reflexões sobre o verdadeiro amor diante da invasão de uma frivolidade de classe média.

E nem tudo é reflexão: são hilárias as passagens em que a protagonista decora a cela, e entoa, de forma graciosamente desajeitada, canções sublinhando cada estação. A compressão do tempo, construída na seqüência de visitas, é um achado, permite a percepção abrupta de toda a gama de sentimentos disparada por uma paixão plenamente planejada, gestada dentro de um tubo de ensaio, diante dos olhos incrédulos de um guarda do presídio. Não existe redenção.

Quando o desejo se consuma, fica uma impressão estranha: parece que o microcosmo seja ao máximo de compactação, como se as moléculas do ar se arrastassem sobre o capô do carro enquanto a família retorna para casa. Ao sair do cinema, estas moléculas seguem se descolando do corpo, e se perdendo na noite fria.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Kim Ki Duk: Fôlego

  1. Izabel disse:

    Tinha perdido teu link mas agora tá no Gooogle Reader.

  2. Izabel disse:

    Tinha perdido teu link mas agora tá no google reader.

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