John Updike: Confie em Mim

John Updike provavelmente não é o cara; tenho alguns candidatos, e eles se revezam na disputa, mas Updike não está entre eles. Updike é um cara, daqueles a quem você pode dedicar boas horas de leitura. Ele apareceu em uma prateleira do Sebo Império, e, subrepticiamente, acabou ocupando dois espaços na minha prateleira.

O primeiro volume, ainda em aberto, que estou é lendo é Confie Em Mim, uma coletânea de contos. Esta descrição é um tanto restrita, mas a minha impressão completa rescende a clichê. Updike, neste volume, tece uma colcha de polaróides não necessariamente urbanas, mas, com certeza, de um ponto de vista urbano. O que vem a ser, provavelmente, o ponto de vista de Updike, o ângulo de onde ele enxerga sua própria existência. Ele descreve episódios da vida de produtos do baby boom com a propriedade que apenas um deles, os tais filhotes da empolgação ianque pós-segunda guerra, poderia ter. Por vezes, o relato é de uma semana, em outras toda uma vida, excetuando, em geral, a infância. Os personagens de Updike são adultos que já criaram os filhos, já se separaram das esposas, ou ao menos as traíram ou foram traídos por elas, e que se vêem em um novo mundo, onde nem todos se adaptam. Seria raso considerar este livro pelo viés da reprodução de clones prováveis de Updike, dado que este é habilidoso o suficiente para nos afastar de uma imitação barata da vida.

Updike escreve com fluidez, e solta exercícios espirituosos de prosa a cada página. Não raro é parar um instante para reler uma descrição extremamente feliz dele. Pelo descompromisso cuidadoso de suas linhas, Updike oferece reflexão no lugar de redenção, e eu sou o tipo de pessoa que aprecia o entendimento simples das condições inevitáveis, em lugar da busca das panacéias absolutas que a sociedade oferece aos cidadãos que não engoliram bem suas respectivas pílulas de esquizofrenia.

Inevitável é a infâmia, e eu nem mesmo pensei em evitá-la: Este é um bom livro, confie em mim.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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