Emiliana Torrini: Love In The Time Of Science

Emiliana Torrini tem um pezinho na Islândia, e é doida como todas as suas conterrâneas famosas. Roland Orzabal, por sua vez, é um dos poucos artistas que consegue concorrer com Roger Waters no quesito Problemas Psicológicos Avançados. Como em algumas das duplas mais improváveis que o mundo já viu, a junção rende bem, e as letras bipolares de Torrini se esbaldam na produção, por vezes sufocante, de Orzabal. Neste ponto, o que pega é a excessiva hierarquia: o produtor rodadão manda, a artista inexperiente obedece.

Orzabal fornece, na mesma mão, alimento e veneno: estrutura o disco de forma incisiva e efetiva, mas carrega alguns cacoetes desagradáveis consigo. Na pomposa Telepathy, por exemplo, poderiam ser os vagidos de Orzabal em lugar do vocal amplificado de Torrini, o que causa algum desconforto; para efeito didático, o início de Wednesday’s Child é puro Orzabal. Para traçar uma linha de comparação, é mais ou menos como quando você descobre que a fagocitabilíssima Cléo Pires lembra demais, em seus traços faciais, seu pai, Fábio Júnior, o Traçador Implacável, ídolo compulsório de todos os cafajestes do Brasil. Em tempo: depois deste insight, Cléo Pires nunca mais habitou minhas fantasias.

O trip hop, nesta época já um estilo estabelecido e regras bem definidas, deixa-se, como ferramenta, apropriar por Orzabal sem maiores receios. Os seus sintetizadores carregam um pouco demais a estrutura vagamente rebolante, mas a aresta jazzy, um dos pontos principais do manifesto Portishead, é mantida. Orzabal soma a isso seu retrospecto no Tears For Fears, com pitadas de grandiosidade new age, sem prejuízo para a organicidade.

Este é um álbum diversificado, apesar da qualidade impedir de pinçar alguma faixa em especial. Summerbreeze antecipa o disco seguinte, Fisherman’s Woman, e mostra Torrini no estilo vocal que a consagrou: fofa e serena. Baby Blue é uma balada fantasmagórica, coisa de Frankenstein sobre uma colina com descargas atmosféricas mesmo. O disco vai indo nesta linha enrolada em ataduras até que começa o bloco otimista, a partir da faixa 5, mas desconfio que Unemployed In Summertime somente soe up apenas por comparação com os meandros sinistros anteriores. Se alguém pensou em cenas tenebrosas ocorrendo em uma pousada isolada no Mediterrâneo, pegou a idéia.

A parte mais legal é que a edição é bem resolvida, fazendo com que o álbum vá se apagando aos poucos, ainda que marcante, permitindo que a vontade de ouvir tudo de novo se concretize.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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