Caminhando

O ser humano toma suas decisões, traça seus caminhos e constrói sua vida, tudo isso baseado em percepções abstratas. Uma vez que a decisão tenha sido tomada, o caminho traçado e a vida construída, ele pára um pouco, olha para trás, e tenta justificar, ou, ao menos, nomear aquilo que viveu pouco antes. Antes que este texto pareça por demais pomposo, vou ao ponto, que é dos mais singelos.

Quando as manhãs surgem claras e sem nuvens, e meu dia não pede maiores malabarismos logísticos, permito-me ir ao trabalho caminhando. Se, ainda por cima, acordei cedo, e o dia ainda não está quente, arrisco-me a ir com minha magrela.

Quando chego ao estacionamento da empresa, agora abarrotado de carros, não raro encontro algum colega. E, uma em duas vezes, segundo uma estatística que formulei há coisa de dois minutos, a pessoa emitirá uma frase com, mais ou menos, o seguinte conteúdo: “ué, onde está o teu carro?”. Algumas vezes haverá algum comentário sobre o estilo do meu carro, um trivial Ford Ka, mas a minha resposta não dependerá muito disso. Geralmente sorrio, e, em algumas ocasiões quando trago minha nuvem cinzenta sobre a cabeça, quase não consigo disfarçar que me desgostam os filisteus.

Nesta hora, surgem as justificativas para o fato de eu vir caminhando da minha casa, sem apelar ao tão natural ato de deixar-me carregar pelo meu prestimoso veículo automotor. Resolvi, hoje, compilar uma lista dessas justificativas, pelo motivo básico que impulsiona quase todas as linhas por aqui: falta do que fazer. Assim:

1. Caminhar é saudável. O trecho que caminho de casa ao trabalho é percorrido em meia hora, sem afobação. Vale como um bom exercício matinal, e me deixa melhor preparado para caminhadas mais agrestes que eu queira encarar;

2. Caminhando, nos harmonizamos melhor com o mundo ao nosso redor. Observamos os detalhes, respiramos com seu ritmo, percebemos que ali vive alguém, notamos que alguma árvore é especialmente bonita. A vivência urbana existe, efetivamente, quando caminhamos. Dentro de carros, somos macacos enjaulados e medrosos, meio surdos e meio cegos;

3. A desaceleração que a caminhada fomenta é relaxante, e promove um melhor início de manhã, o que já é, em si, o prenúncio de uma boa manhã e de um bom dia;

4. Se caminhamos, estamos sujeitos a ganhar caronas, e caronas são sociabilizantes mais do que bem-vindos em nossa rotina de trabalho massivo e televisão embotante. As conversas descompromissadas durante uma carona são excelentes para a construção de uma rede social diversificada, base para a criatividade e para o bom aproveitamento das oportunidades que surgem. Além disso, alguns motoristas se culpam por usarem seus carros, e podem sentir-se melhor por justificarem um pouco melhor o uso de seus possantes;

5. Por vezes, pode bater uma preguiça, e o vivente acabar dentro de um ônibus. Outro grupo de pessoas, e, talvez, a possibilidade de puxar o livro de dentro da mochila. A sensação de movimento pode enriquecer a literatura, embora diversas pessoas resmunguem sobre o enjôo que sentem ao tentarem ler dentro de latas em movimento,

Eu poderia, caso não tivesse sido acometido por uma repentina preguiça, prolongar esta lista, esforço este que logo resultaria no esgotamento do leitor, provavelmente bem antes do esgotamento do assunto. Sendo assim, retiro-me, torcendo para acordar cedo amanhã, pronto para caminhar um pouco mais.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Caminhando

  1. Ian disse:

    Zanshin.

  2. Jurema disse:

    em suma: não se justifique, apenas caminhe… as justificativas só fomentam motivos que na verdade não existem para quem caminha por caminhar, a cada caminhada surgem novos “motivos”. sei lá se deu pra entender, ou eu que tô viajando… hauihaiuahauh

  3. turnes disse:

    pronto, li tudo, tava em atraso com vosso blog.

  4. Adilene disse:

    Para os homens o carro é um referencial muito forte. Culturalmente. Minha percepção feminina me impede de captar a razão essencial disso. O referencial das mulheres…. os cabelos?
    O homem não vê um amigo a algum tempo, chega e pergunta: “trocasse de carro”?
    A mulher não vê uma amiga a algum tempo, chega e comenta: “nossa, como esse corte de cabelo caiu bem em vc!”
    Enfim, o que me resta dizer: “Ford Ka? Bacana, acertaste, para mim Ford é sempre Ford…”.

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