Michel Houellebecq: Plataforma

Michel Houellebecq costuma causar emoções extremas em seus críticos e em seus fãs. Ambas as facções possuem razões para sentirem o que sentem, embora provavelmente, muito provavelmente, não sejam as razões certas.

A primeira impressão que Houellebecq passa é a de um desbocado, dizem. “Oh, um desbocado!”, como diriam de Philip Roth. Se formos julgar por este aspecto, o francês vence o americano com facilidade: sua densidade de descrições de cenas de sexo por página é muito maior. Como em Roth, todavia, elas não estão ali de graça: elas fazem parte do caminho para as realizações do personagem.

Como Roth, e outros escritores contemporâneos, Houellebecq não se furta a participar de seus romances. Os enfoques são diferentes: este entra sem mesmo fantasiar seu nome, enquanto o outro se divide em objeto e observador, entre herói e narrador. E, francamente, funciona muito bem, em ambos em casos.

Com um pequeno porém, entretanto: o autor francês, talvez pela curta produção, distribuída em um curto período de tempo, parece ser mais repetitivo. Não li seu outro romance, Partículas Elementares, mas vi a adaptação de um diretor alemão. Vários elementos são comuns: o perdedor compulsivo que apenas sobrevive, renhido dentro de uma visão bastante peculiar da realidade: para ele, uma visão crua, desnudante; para os outros, apenas misoginia e preconceito.

Aqui, como lá, o perdedor encontra sua princesa, e ela é exatamente como ele precisa que ela fosse: o entende em minúcias, e se entrega ao que ambos procuram como salvação da alma em tempos desesperançados. Salvação? Sim, falo de sexo.  Neste ponto, Houellebecq dá sua cartada mais impressionante, e mostra-se totalmente afinado com a atualidade, sem, entretanto, perder o gume ou ser tomado por ela. O diagnóstico de Michel é o mesmo que se escuta em qualquer boteco desclassificado na cidade: falta sexo para este povo europeu.

Se a descoberta por si é banal, cabe ressaltar a revelação por trás do truque: o sexo demanda mais do que desejo, demanda doação. Para que exista o sexo em sua plenitude, os títeres protagonistas de Houellebecq precisam esquecer-se de suas identidades, deixar de lado suas relações de hierarquia. Como Michel narra, sabe-se que outra fonte deste sexo libertador são as prostitutas tailandesas, cantadas em loas bíblicas aqui. O que Valérie fazia para canalizar sua energia sexual ou mesmo para adquirir as habilidades que demonstra a Michel, não é revelado, apenas sugerido.

Através das diversas camadas de mau humor simplista e costumes sexuais reprováveis, Michel é um espírito elevado. Aprecia a cultura, lê muito, e cita seus prediletos enquanto narra. Com este toque, Houellebecq demonstra sua teoria de que não há escapatória para o homem de classe nestes tempos, exceto as vielas mais sórdidas. A faceta cultural, entretanto, sinaliza também um certo descontrole do romancista, que deixa vazar demais de si para sua pretensa criatura. Este deslize enfraquece, por vezes, o vigor narrativo, pois indica um veio intenso que pode ser efêmero.

O destino final desta linha de raciocínio, no livro, é a manutenção do colonialismo, aquele monstro que, como imaginávamos, estava estrebuchando no século XIX. Então: era mentira. No século XXI, a Europa continua sugando as suas colônias. Ou sendo sugado por elas, de forma mais coloquial. Entretanto, as prostitutas orientais serão vingadas, e a vingança virá na forma da tragédia que se abate sobre Michel, em mais um dos pontos típicos de uma certa fórmula Houellebcq de escrevinhação de romances.

Lido ao pé da letra, Houellebecq é um chato, do tipo que resmunga o tempo todo, soltando farpas para todos os lados. São atingidos ecochatos, muçulmanos, empresários, yuppies, hippies, feministas, velhos, jovens, e, se não me engano, sobra para comunistas também. Há de se tomar alguma distância, e observar as entrelinhas da bem costurada prosa de Houellebecq: ali, nas amarrações bem pensadas, segue um anti-herói com fôlego o suficiente para filosofar de modo relevante nossos dias, esses dias idiotas e hipócritas.

Um momento para desvendar espíritos: se você se incomodou com as “razões certas”, bem, você já se alistou em um dos exércitos em torno de Houellebecq. Quanto a mim, vou aplaudir bem baixinho, aqui do meu canto; se ele não se leva a sério, porque deveria o leitor fazê-lo?

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Literatura e marcado , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Michel Houellebecq: Plataforma

  1. J. disse:

    Só li poesias dele.

  2. Adilene disse:

    Meu único contato com Houellebecq foi através de “Extensão do domínio da luta”. De certa forma não me incentivou a novas aventuras em seus livros, eu diria, com o perigo de ser interpretada sob aspectos que talvez não sejam os que eu queira expressar, que ele é por demais “francês”…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s