A criatividade e a urna eletrônica

Ainda que esteja longe de diagnosticar uma conspiração contra a liberdade de expressão, não posso me furtar a perceber que a tecnologia tende a tornar nossa vida mais fácil e mais plana; no sentido anglófono,  equivaleria ao nosso proverbial “sem graça”.

Em pontos mais salientes desta superfície de eventos e conclusões, você deve ter se descoberto incapacitado de lembrar números telefônicos sem o auxílio daquela demoníaca caixinha emissora de raios eletromagnéticos cancerígenos que chamam de “celular”.

Da mesma forma, seu filho nunca mais precisou se esmerar em fazer um trabalho borrado de guaxe para a aula de arte ou um mapa xexelento em papel-manteiga para a aula de geografia. Hoje em dia a molecada usa o recurso de Copiar e Colar, e temos um mundo inteiro de onde copiar. Aliás, diversos acadêmicos também o fazem.

Apesar de toda a interatividade que o mundo cibernético nos promete, pouco se viu da concretização desta promessa: a televisão continua recheada de programas irrelevantes e chatos, e você continua não podendo fazer nada quanto a isso. Exceto desligar, é claro.

Nos últimos dias, no horário do almoço, tenho acompanhado, involuntariamente, alguns episódios da broxante corrida eleitoral em Santa Catarina. Recebi, via email, alguns artefatos hilários de nossos candidatos; ri, num primeiro instante, e logo depois tentei esquecer, pois a situação é depressiva.

Pensando no que devo fazer, quedei diante de uma questão interessante: a impossibilidade do nulo criativo. Explico.

Nos anos oitenta, a década em que passei boa parte da adolescência, meus anos de formação, as eleições ainda eram na base da cédula eleitoral, e os resultados finalizados após horas de lutas na contagem e apuração de votos. Para felicidade de mesários, a urna eletrônica, projetada aqui mesmo em Santa Catarina, pipocou por todas as partes do Brasil, e nos arremessou em uma era de apurações finalizadas antes da meia-noite. Chega de suspense por coisas que nem são realmente tão excitantes.

Entretanto, a maquininha não poderia nos facilitar um trecho da vida sem dela, da vida, roubar um naco, e um dos mais criativos: a subversão sorridente.

Naquela década de que eu falava, quando o gaudério se indignava, anulava o voto, e aproveitava para deixar uma inscrição do seu repúdio aos candidatos de merda que lhe apresentavam. Destes momentos criativos surgiam cascalhos multifacetados e pérolas nobres, conforme o grau de instrução e a criatividade do subversivo em questão. Os nomes de candidatos faziam uma das poucas alegrias na vida de mesários e fiscais.

Hoje a tristeza uniformizadora impera. Digito um número válido, e um candidato mostra sua cara, e devo confirmar, caso seja realmente o meu candidato. Se digito um número inválido, a máquina me questiona se estou bêbado ou algo equivalente, e me deixa claro que não estou sendo um apoiador da causa da democracia.

Nada de marcas pessoais ou variações bem-humoradas com a picardia e o sarcasmo de sabor local: apenas um neutro e quase envergonhador “voto nulo”. Chega a constranger. É tão chato que eu até estou procurando um candidato para votar, só para nem pensar que estou deixando de exercitar minha criatividade. Enquanto procuro, faço intervenções artísticas em seus santinhos. Me impedem de criar nomes na cédula, mas não podem me impedir de encher suas caras safadas de bigodes e óculos feitos a caneta Bic.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para A criatividade e a urna eletrônica

  1. Christian disse:

    Mas como?!? Não dá nem pra votar no Grande Otelo, na Clarice Lispector, no Monteiro Lobato? Pô, eles ó aparecem nas urnas genéricas/educativas…

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