Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados

Um dos meus dilemas de imparcialidade ao apreciar obras de literatura é o da identificação. Entre gostar de algo não tão bom porque me identifico ou não gostar de algo não tão ruim porque não me identifico, fica um abismo suburbano de dúvida existencial. Certamente não importo em ser taxado de bobo ou deslumbrado por bater palmas para aquele romance cujo protagonista tem coisas em comum comigo; o que me corrói é a sensação de estar perdendo a apreciação de uma obra apenas porque não consigo me conectar a ela.

Estes pensamentos, talvez já pensados de leve anteriormente, ocorreram-me com vigor ontem à noite, enquanto lia Morangos Mofados, e permaneceram hoje pela manhã, apesar do conto, bom, em que o analista mostra mais interesse em descobrir a cor de suas meias trocadas do que em ouvir sua cliente. Apreciei este conto em específico, apesar da personagem feminina ter, irônico dizer isto, dilemas mal resolvidos. Isto ocorre em alguns momentos do Abreu: as motivações não raro são esdrúxulas, e ficam como aqueles discos de gordura boiando numa sopa infeliz.

Poderia também, neste conto do analista, ser escrito outro conto, ou dois, com outros pontos de vista, devidamente disfarçados. De certa forma, é o que ocorre no caso das duas descrições femininas discordantes a princípio e convergentes em sua eventualidade. Ainda nestes contos, entretanto, a visão do universo feminino é de escárnio pela condição, o que transparece a inclinação pessoal de uma forma que não deveria ocorrer no arquétipo que considero para o bom escritor.

Convém falar também do aspecto datado da prosa. Publicado originalmente em 1982, Morangos Mofados tem sabor e cheiro de anos setenta. Fica impregnado nas páginas o amargo da derrota da intelectualidade tropicalista diante do medonho braço militar. A sina da maioria dos personagens é vagar em apartamentos com almofadas de cores estranhas, fumando cigarros fortes, tomando cafés amargos e ouvindos blues, aquele blues metafórico e clichê. Neste momento a disrupção de leitor e prosa é máxima: meu estômago não admite café, nunca fumei um cigarro, e acho blues uma merda, com exceção de um ou outro standard do gênero na voz de Madeleine Peyroux.

Presumivelmente, os anos setenta devem ter sido o ápice da astrologia, que é sintomática em diversas passagens. Neste momentos, este leitor aqui pensou seriamente em largar a leitura deste volume: uma coisa é falar de astrologia no livro, outra é o escritor mostrar-se transparentemente um apreciador desta “ciência”. Esta transparência do autor pode ser comovente, mas, em se tratando de literatura, é desastroso; livro não é confessionário emocional. Por outro lado, estes momentos de convergência de astrologia e setentismo me ajudaram, em parte, a entender o que é o triste fenômeno chamado Paulo Coelho.

Parece-me que falta a Abreu algo mais de densidade criadora, que faria seus personagens restritos transcederem sua condição; Faulkner sempre fala do mesmo mundinho fechado, mas sua obra agrega tantos signos, e em um ritmo tão poderoso que fica difícil não enxergar a universalidade do que escreve. Pela leveza poética da prosa de Abreu, seria necessário abrir seus horizontes, enxergar os outros universos ao redor de seus planetas sofredores e masoquistas, à moda de seus colegas na crônica, este gênero tão brasileiro.

Terminada a leitura, fico me perguntando o que diabos este livro tem que tanto emociona pessoas cultas Brasil afora? Talvez seja mais uma das reservas anti-crítica que pululam no país.

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Sobre gilvas

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6 respostas para Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados

  1. Pingback: Roberto Freire: Cleo e Daniel « sinestesia

  2. d. disse:

    a questão que implica ao autor não é fazer transcender a condição das personagens, mas sim, explorar ao máximo a limitação presente neles; isso é tão claro. e isso não é uma defesa ao autor, mas uma exigência a um olhar mais atento do o leitor. e, diga-se de passagem, identificação não serve como critério de qualidade e, muito menos, argumento-sabe para algum tipo de crítica. é só “achismo”.

  3. maricota disse:

    pessoas azedas não gostam de morangos mofados…

  4. marcelo disse:

    Lembras daquela coleção , de ouro onde marcos Rey reinava com suas historias … Como o segredo do hotel 5 estrelas, O rapto do garoto de Ouro , O Diabo no Porta malas ,Esse muito bom por sinal…. (indico aos Emos de plantão) Caio fernando abreu é isso , Um Marcos Rey morto , one meu sobrinho Guilherme se delicia com suas historias em Morangos Mofados !! Inclusive tive que comprar Eric satie para o garoto !!Ah Fernando Abreu voçê me deve essa!!!!

  5. Christian disse:

    Palavras muito adequadas, até mesmo a parte do blues.

    Ouvindo com atenção, não é difícil perceber uma dose de “pagodismo” no gênero, mesmo o “de raiz” (supondo que a expressão tenha algum sentido). E, embora isso não prove nada (só prova que o Coringa é um feladaputa…), repare que 90% das canções do começam com “woke up this morning…”.

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