Quatro Filmes

O filme de Picha não combina com expectativas altas. Deste ponto de vista, é particularmente fácil gostar de Branca de Neve – Depois do Casamento.  Se você for um garoto, é claro. Algumas piadas podem tocar em sinos mais sofisticados, mas o que reina em boa parte da película é a puerilidade, cujo ápice, na minha opinião, é a cena do engate múltiplo entre os anos, com direito a canção sobre o tema e tudo mais.

A iniciativa toda tem um paralelo bastante sensível com Shrek, que já parodiava o universo dos contos de fadas bem antes. Entretanto, onde Hollywood injetou implantes retirados de sitcoms e cultura pop correlata, o belga preferiu picardia juvenil, quase como se estivesse trancado em seu quarto com posters de bandas rabiscando os livros do seu irmão caçula e temporão. Existe uma pequena referência ao equivalente americano, quando os anões tentam furar a festa amontoados dentro de um vestido que os faz parecer a noiva do ogro do outro lado.

O filme, apesar de não ser exatamente um estudo filosófico, tem seus momentos interessantes. Os anões escravizam os duendes da floresta em uma mina industrial que nada fica a dever às zonas de processamento para exportação do livro de Naomi Klein. A transmutação dos anões em capitalistas nojentos é sintomática, e remete de forma divertida à virada na gangorra entre realeza e burguesia. Gosto particularmente do ogro, que é o personagem onde melhor funciona a tensão sexual em relação a Branca de Neve. A seqüência em que os anões lançam um duende lotado de veneno para a garganta do faminto ogro merecia um replay.

A parte mais polpuda do pacotão de metáforas sobra para as mulheres, que são arquetipificadas nas três princesas e na fada-madrinha. Existe ainda o exemplar da putinha adolescente que é Chapeuzinho Vermelho e a swinger Bela, mas são as quatro primeiras que traduzem melhor as obsessões de Picha, e provavelmente de quase todos os homens que já pensaram sobre o assunto. Branca de Neve é a moça pura e frígida, Bela Adormecida é a dominadora que te obriga a fazer coisas apesar de estar alheia a tudo que você é, a fada-madrinha é a mulher chata com qual você teme acabar seus dias, e Cinderela, bem, a Cinderela é tão gostosa, mas tão gostosa que é melhor você se ligar de que nem tudo é bem assim como parece.

Além de lembrar-me de meus dias atuais, este filme me lembrou de quando eu era um moleque em Little Boats City. Sábado à tarde, e lá estava o pequeno Gilvan diante da caixona de abelhas, aguardando começar Disneylândia. Não lembro a razão, mas eu nunca sabia de antemão qual seria o conteúdo do programa. Qual não era minha decepção quando eu descobria que seria um filme com pessoas de verdade, e não uma animação. O filme de Picha faz isso: tira um homem velho e barbudo de sua rotina adulta, e o faz pensar em como ser idiota poderia ser uma abertura deliciosamente divertida ao pensamento e às divagações.

O Balão Vermelho celebra uma era de inocência. A Paris de seus fotogramas é cheia de mascates, gatos em esquinas com vistas, feiras de antigüidades e vielas onde correm fluidos dionisíacos não necessariamente agradáveis. Ainda assim, é o espaço onde o garoto caminha com seu arquétipo composto: o balão pode ser várias coisas, desde um amigo invisível até o primeiro beijo, passando por aquele amigo que misteriosamente você descobre sendo o mais especial dos que te cercam apesar de não ser nada especial. Pode ser enxergado o fantasma do ritual de passagem, e homem nenhum deve esquecer a experiência de enfrentar tantos oponentes na luta perdida por sua princesa. É assim, meu amigo. Lamorisse não pensava em nada disso, aposto. Ele queria apenas experimentar a poderosa experiência colorida com um elemento que saturasse a tela à sua passagem. E o fez. Vale ressaltar os momentos divertidos em que o garoto e o balão interagem de forma veladamente aleatória com a cidade, o que resulta, em certos momentos, num clima de pegadinha de programa dominical, e de um jeito legal, acredite. Ao final do filme, se tudo o mais não foi fofo e esperto, você terá a revelação da inspiração que levou um certo padre brasileiro a embarcar em um aparato flutuante de navegabilidade pouco confiável.

A Camargue é o cenário de O Cavalo Branco, e Lamorisse já era o romântico que se mostra no filme anterior. Em P&B, filma calmamente o menino navegando altivo em sua simples canoa. Aqui também o mundo é claramente dividido, e existe um abismo familiar onde deveriam estar os pais. O adulto é o verdadeiro selvagem, um ser que falta à harmonia em que flui toda a Natureza na região. Suas imagens sobrevivem ao teste dos anos, poderosas e belíssimas.

Ao Entardecer é perfeita para senhoras: previsível, fotografia bem cuidada, e Claire Danes sobrenaturalmente linda com suas orelhas esquisitas. Eu quase chorei, juro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Quatro Filmes

  1. Kika disse:

    Eu dormi no meio do filme ou realmente não explicam porque a Claire Danes não fica com o médico?
    Ou explicaram de uma forma tão sutil que eu não entendi?
    Eu lá sentada, esperando uma resposta… e de repente os créditos!
    Miércoles… to com um ponto de interrogação até agora na testa.

    Beijo, garoto.

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