Pierre Clastres: Arqueologia da Violência

Algumas pessoas têm uma facilidade incrível de criar imagens mentais tridimensionais das personagens dos livros que estão lendo. Existe aí um tanto de habilidade sobre-humana, e assim a descrevo, talvez, na vontade intensa de ser, ao menos, humano. Fora desta esfera, circundam estas pessoas esquisitas e especiais que conseguem adivinhar barbas e  cabelos, olhos e lábios, altura e barriga, e por aí segue.

Entretanto, existe definição onde eu possa me abrigar: sou bom para traços abstratos e para maneiras. Assim como percebo perfeitamente a forma como certo personagem manca ao descer uma escada que não sei descrever, sei como agiria em uma situação que não é descrita pelo escritor. Como poderia saber? Ora, sabendo.

Outra coisa em que sou bom: descrever o cara que escreveu. Pierre Clastres, por exemplo, é um cara fisicamente jovial, mas que deixou suas fantasias para trás, ocupando o lugar delas com as percepções pragmáticas herdadas dos povos com quem conviveu. Clastres é um cara inteligente do tipo tosco, pois não entende muito bem como uma sociedade já radiografada ao extremo cisme em fingir que é inocente. A mesma percepção permite que tenha a saudável inclinação a odiar o Estado, e ainda mais o Estado totalitário, embora mesmo o Estado bonzinho também o enoje.

As linhas escritas em Arqueologia da Violência são bem escritas, embora os seus blocos possam ser distinguir demais para considerarmos este volume como um livro. São resenhas de artigos de outros pensadores e cientistas, relatos do convívio com silvícolas, e até um divertido conto sobre o contato de um grupo de turistas com selvagens já doutrinados em formas iniciais de capitalismo.

O subtítulo da bem cuidada edição da Cosac & Naify, Pesquisas de Antropologia Política, poderia ser um título mais descritivo. Sim, eu fui enganado: comprei este livro pensando em uma análise bem resolvida da violência nas civilizações, mas acabei com um volume que trata, acima de tudo, de ideais burilados pela observação atenta de civilizações estruturadas em forma distinta da nossa.

A destruição, desnecessária nesta altura do século, da noção novecentista do bom selvagem, aguça a percepção, e nos prepara para algo que não sabemos do que se trata, mas que percebemos intrigante pela proximidade. Clastres fala do líder indígena, e soa como um paradoxo para os leitores: porque ser o chefe se não há o que chefiar em uma aldeia amazônica? Ele explica como alguém pode soar bobo falando de economia em uma esfera indígena, e em como a servidão na sociedade atual é, bizarramente, voluntária.

Em diversos momentos, Clastres nos presenteia com pequenas sacadas iluminadas, embora, muitas vezes, corteje o abismo da incompreensão. Este último fator não chega a causar problemas, dado que os vazios nas explicações de Clastres apenas nos instiguem a procurar melhor nos palheiros que ele revira. Dá para nutrir bem mais de uma hora de divagação pessoal com a noção de que existe um ponto de inflexão no mau encontro, onde o homem adentra sua entrega ao que ele define como superior, e isto é apenas um exemplo. Mais tarde ele ressalta os pontos que deixou em aberto, deixando claro que é um segmento em uma linha de pensadores.

Pontos baixos, notavelmente desagradáveis, surgem quando Clastres se dirige a seus inevitáveis detratores. Os dois artigos em que isto ocorre são extremamente didáticos, e o etnólogo mostra valor mesmo em suas baixezas. O registro das picuinhas entre pensadores mostra claramente como podem ser bobas as rusgas entre intelectuais. O tempo faz questão de apagar esses desentendimentos, assim como apaga as modas e seus reflexos. O pensador intrigante soa como um pavão ofendido por pardais, o que nos dá muito material sobre o qual refletir sobre nossas recaídas diante de provocações. Ainda assim, uma parcela da minha pessoa dá umas gargalhadas disfarçadas quando Clastres desanca os marxistas setentistas por se meterem em antropologia, quando deveriam dizer das suas apenas no âmbito da economia.

O ponto que cisma em ficar, ao final da leitura, diz respeito ao modo como encaramos o trabalho. Enquanto os povos civilizados da esfera industrial se propõem a produzir sempre mais, na busca de um excedente, o selvagem se mantém no limiar do necessário. Em alguns pontos, tal enfoque pode causar tragédias, e mesma a extinção de um grupo, mas, no cômputo geral, a ansiedade da nossa sociedade, comparativamente, parece bem desnecessária.

Alerta: aconteça o que acontecer, não leia o prefácio da edição brasileira, sob risco de morrer de tédio ou desistir de ler o livro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Pierre Clastres: Arqueologia da Violência

  1. Cetáceo disse:

    Podes me emprestar? Se estiver em portugues ou ingles. Ou trocamos por alguma coisa que eu tenha. Li o “a sangue frio” do capote a alguns dias. Maomêno… mas acho que tu gostarias de malhar aqui no teu brógue.

  2. sol disse:

    vim aqui pra comentar: vivo? oh!
    e o security word é chucrute.
    COMO ASSIM MEO?!

  3. marcelo disse:

    O ser humano está fadado ao fracasso!! Isto é fato . nao há arqueologia suficiente para atestar o contrário!! Nós somos o cancer da terra !!!!!!!!Vou comprar esse livro , mas só no natal ok…… Grato pela dica .

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