She Wants Revenge: This Is Forever

O segundo disco do She Wants Revenge não tem a capa equivalente à toa: o que eles oferecem é quase o mesmo conteúdo. O que se diferencia nesta segunda chegada é justamente uma maior união orgânica entre as canções. Passada a urgência da composição represada, o que se sobressai é o clima, a sugestão de uma certa realidade paralela.

E do que se trata? Juntando os pedaços e estruturando, fica mais ou menos da seguinte forma:

a. os caras fazem aquela reciclagem respeitosa do baú Sisters of Mercy com responsabilidade e faca nos dentes. Seria algo semelhante ao que fazem certas bandas da gravadora Cleopatra, como Suspiria e Rosetta Stone. A primeira carrega o Argento no nome e na atitude, com uma releitura do lado negro mais aparente em bandas como Depeche Mode; funciona em certos momentos. A outra face da moeda, Rosetta Stone, saiu da caverna com um CD nervoso e acelerado, com pegada pop e cinismo afiado, mas acabou por renegar as catacumbas em favor de uma existência na recém-criada, nos noventa, cena eletrônica alternativa; se ferraram. Anos depois, She Wants Revenge vem na esteira dos copiadores do Sisters of Mercy, mas, curiosamente, tem um gume afiado e renovador;

b. este segundo disco reforça a vocação dos caras em fazer um som perfeito para pegar o carro em uma noite chuvosa e fechada. Parece que você vai poder passar em todas as poças sem realmente importar se o carro aquaplana ou não. Na verdade, nada interessa muito. Dá para dizer que os caras pegaram bem a percepção oitentista da música urbana e claustrofóbica com nuances de romantismo decadente. Somando 2 e 2, dá para dizer que a coisa desemboca bem no binômio cinismo e niilismo. Se eles tivessem um Arnaldo Antunes na banda, logo sairia um manifesto babaca anunciando o ciniilismo, mas o velho barbudo tem as manhas de garantir que a monstruosidade abjeta seja limitada, nem que seja pelo orçamento da cocaína;

c. todo romance está fadado à ruptura ou a um distanciamento estético compulsório. É a verdade, querida, mas tudo o que eu quero é olhar pela janela deste bar decadente, esperando, sem muita convicção, que caia um disco voador no meio da rua, explodindo, e nos levando ao que eu já sabia que aconteceria. Trazendo para um equivalente nacional, é quase como eles entoassem, em metade do disco, versões anfetaminadas belalugosianas para Estrada de Santos, do nosso rei depenado. Acredite, tem horas em que a pessoa precisa deste disco.

Apesar de ser ianque, em termos de aderência e honestidade, está bem mais para Gentle Touch do que para Interpol. Ainda bem.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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