Philip Roth: Complexo de Portnoy

O Philip Roth de Pastoral Americana e a Marca Humana, agora entendo, é uma criatura escrevinhante depurada e gasta pela erosão dos anos em um país de imbecis. Algo como uma versão enrugada e com DNA humano para o Grand Canyon do Rio Colorado, mas sem a dimensão épica. Imagina aquela turistada burra na borda do abismo comendo Fried Chicken de pacotão, e tu pegas a imagem.

Voltando ao Roth, o livro da vez é Complexo de Portnoy. Achei o exemplar jogado sobre alguns livros alinhados no Sebo do Império. Sete pilas, eu acho. Abrindo, descubro que já teve, pelo menos dois donos: assinatura de um, em 1970, carimbo de outra, médica, sei lá quando.

Pausa para pensar em como é mágico ter em mãos um livro com 38 anos de idade, sem deixar transparecer meu quase receio pelas brincadeiras de idade que isto possa suscitar. Ao livro, então.

Roth, o indivíduo que vivencia seus dias, era um cara mais novo. Toda a carga da realização do protagonista queda imperceptível para os pais de uma era de cuidado e dedicação extremos, pais que cobram o retorno de um investimento emocional e financeiro sem freios. A exigência, plenamente plausível para eles, de que o filho deva continuar a linha familiar, ela cria uma torrente que flui pelos ouvidos profissionais e passivos do analista a quem o protagonista de Roth se dirige em toda a narrativa.

Roth, o escritor, era um cara mais novo. E dá-lhe descrições de sexo, boa parte constrangedora, do tipo que só se conta para pessoas pagas, claro. Como no parágrafo acima, o sexo tem de aprovisionar o indivíduo com mais cargas de inadequação. Portnoy voa “de pomba em pomba” como assim que descobre ser possível, e logo se torna um entediado neste assunto. O processo é familiar a todos os solteirões na faixa dos trinta. Roth fala, naquele momento, a uma geração que eu conheço muito bem. Fico até me perguntando se não vou pegar meu exemplo de A Marca Humana quando tiver meus setenta anos, para ver se me entendo melhor naquela altura do campeonato.

Vale lembrar que existe uma crosta constante nos livros de Roth, e ela se refere à vivência do judaísmo em uma sociedade altamente conservadora e com tendências ao gueto como forma de disposição social. Do ponto de vista brasileiro, esta estrutura social não é uma realidade constante, apesar dos esforços ilimitados dos chupadores de ianques. Corte a crosta, e Roth fala diretamente para você. Ou para o seu vizinho, seu colega de trampo, seu antigo colega de escola.

Este Roth antigo tem o poder de extrair boas gargalhadas, com um humor que remete aos bons tempos, e como faz tempo, de Woody Allen. Ele escreve de forma mais direta, com o material farto de uma adolescência plena de eventos patéticos. O resultado óbvio é uma hilariedade cortante, doída para o protagonista, mas irresistível para o leitor. O Roth dos anos noventa se entrega à caudalosidade com gosto, o que o impede de ter arestas humorísticas tão evidentes.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Philip Roth: Complexo de Portnoy

  1. Henrique disse:

    Li o “Complexo de Portnoy” em plena adolescência e como vivemos em um país de pouquíssimos leitores, em comparação a outros países, não pude comentar com outro leitor sobre as impressões que o livro causava. Gostei de encontrar, por acaso, alguém comentando o livro.
    Quando li, há muitos anos atrás, era ainda adolescente e era ávido pelo mundo, queria sorver o mundo e conhecer tudo. Lembro que as narrativas sobre sexo, mostrado as vezes de forma patética, desmistificaram e humanizaram este aspecto da vida uma vez que eu não tinha experiências concretas nesta área. Vivia em uma cidadezinha do interior sem internet, televisão, com jornais e revistas escassos. Então apelava para os livros e lia prolixamente. Foi minha salvação: atenuava a solidão e ampliava os horizontes e me lembro do livro como uma narrativa de critica corrosiva e sem reservas, como um amigo confidenciando suas experiências, mas era um amigo exigente por que eu tinha que esforçar para entender que nem sempre a família e outras instituições não eram sempre perfeitas. Era um leitor ingênuo ainda.
    Alguns livros eu esqueci, outros continuaram na minha memória e este foi um dos mais significativos, como também “Servidão Humana” de Somerset Maugham, “Crime e Castigo “ de Dostoievski e muitos outros autores e livros… Gostei da reflexão sobre a idade do livro e as implicações que isso pode suscitar, ainda não retomei um livro lido para observar a leitura sob o olhar da experiência, acredito que ainda tenho muita coisa inédita para ler, mas ainda vou fazer esta leitura de “revisitação” a minha adolescência.

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