A Chuva dos Últimos Dias

Pela janela, as nuvens retomaram o espaço azul que prenunciava o fim de alguns meses que poderão, num futuro próximo, ser classificados como uma era diluviana em compêndios de metereologia ou defesa civil. Não foi desta vez. O cinza ainda comanda a aquarela dos céus florianopolitanos.

Confesso estar incomodado, apesar de ser um apreciador declarado de dias chuvosos, e já ter até escrito odes ao tema. É que saturou. A chuva, aqui em Florianópolis, deve ser a força da Natureza cujo poder sentimos com mais força. No momento atual ela entra em todas as nossas equações diárias, se imiscui em nossos planos, define nosso vestuário de forma implacável, e nos lança em divagações de diversas tonalidades.

Existem as obviedades: teremos mais pernilongos, muriçocas, maruins e toda espécie de insetos picadores, as suas roupas dificilmente apresentarão o cheirinho típico do bom sabão em pó, mas apenas a fragrância de cachorro molhado; as pernocas brancas demorarão a aparecer nas calçadas, e levarão mais tempo ainda para adquirirem os tons de Verão, e por aí vai.

Existem os catastrofismos, no rastro do aquecimento global for dummies de Al Gore. Se antes eram apenas os ursos navegando em blocos de gelo exíguos, agora a representação estaria mais próxima: dilúvios sempre foram castigos divinos de eficácia didática indiscutível, ainda mais em tempo de reza simplificada e fé duvidosa vendida a granel.

Culpar-se pelos eventos metereológicos é uma opção disponível para o masoquista, mas ela não é obrigatória. Cientificamente, ainda não existe base que corrobore nenhuma das linhas de pensamento. Se estamos causando o aquecimento global, ou se isto é apenas um movimento natural na dinâmica do clima global através das eras, ainda não sabemos.

Para a segunda linha de pensamento apresentada acima, contribui a inesgotável arrogância do ser humano: se algo acontece, foi causado por nós, senhores do planeta, e não por forças irracionais. Como poderiam existir forças que não sejam comandadas por nosso grande deus feito à nossa imagem? Ora, que distração: esqueci-me de que nós é que fomos feitos à imagem dele.

A escala de tempo do ser humano vai do segundo à década. Temos sistemas eletrônicos, microcontroladores em tempo real e processadores digitais, os quais nos dão a ilusão de que entendemos o que se passa abaixo da escala de segundos. Temos a história, a geografia, e outras ciências, as quais nos permitem um arremedo de entendimento sobre escalas maiores do que uma década. Apesar dessas ferramentas, entretanto, somos ignorantes fora desta faixa estreita de tempo.

Tal percepção de ignorância não ocorre à grande maioria da população, e isto é natural: não cabe à patuléia divagar sobre abstrações elevadas, mas apenas consumir bovinamente suas novelas e seus enlatados americanos. O que me deixa abismado é ouvir elementos ditos bem pensantes de nossa sociedade patinarem em idéias apaixonadas sobre assuntos sérios, que mereceriam pensamento e reflexão em lugar de discurso inflamado.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para A Chuva dos Últimos Dias

  1. Adilene disse:

    “as pernocas brancas demorarão a aparecer nas calçadas, e levarão mais tempo ainda para adquirirem os tons de Verão”… bom saber que sou citada não nominalmente no seu blog, :).

  2. Christian disse:

    Não dá pra concordar com tudo, mas é uma forma engraçada e politicamente incorreta de ver o tema — e isso já dá a Carlin diversos pontos.

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