Livros na Praia

As curtas férias que tive no final de ano me permitiram acabar dois volumes que eu vinha lendo em paralelo em Dezembro.

A leitura de livros em paralelo sempre foi um assunto para diversas elucubrações metafísicas de minha parte. A natureza delas, obviamente, não extrapola o âmbito do boteco, e, portanto, é apropriado que eu as despeje por aqui.

Num primeiro relance, poderíamos especular que dois livros lidos em paralelo deveriam ter alguma relação. Alguns diriam que seria interessante que os livros se distanciassem em assunto e estilo, ou mesmo em outros quesitos. Neste caso, poderia ocorrer um degrau exagerado entre os dois volumes, causando desconforto na transição entre leituras. Defenderia-se então que o choque de temperaturas é praxe em certos tratamentos ortodoxos de saúde.

Então os livros deveriam ser parecidos? Talvez confundíssemos os personagens de tramas em volumes paralelos, talvez fosse perdida a sutileza das mudanças de tom ao controlar a percepção linear de certos andamentos. Haveria ainda quem se confundisse, e não conseguisse elencar claramente as características que definiriam livros semelhantes, encontrando dificuldade em colocar na mesma prateleira até mesmo as listas telefônicas de anos consecutivos.

Felizmente, estes dilemas não me ocorrem muito. Costumo escolher os livros intercalando romances e não-ficção, e, quando ocorre alguma superposição de livros, eles acabam sendo distintos, de alguma forma.

Nestas férias, embarquei com Um, Nenhum e Cem Mil, de Luigi Pirandello, e História Natural dos Ricos, de Richard Conniff.

O volume de Conniff é claramente o mais divertido dos dois. Minha parca curiosidade não foi o suficiente para pesquisar o parentesco de Richard com o maestro de orquestras de supermercado Ray; fiquei com o que me informou a orelha do livro, e que se resume a contar que o escritor também é jornalista, colaborador de revistas como a minha querida National Geographic.

Do jornalismo pode se deduzir, com bastante correção, que o texto é altamente palatável. Sou de opinião, inclusive, que todo jornalista foi irremediavelmente estragado para a literatura já em sua primeira aula de redação na faculdade. Eles são treinados para serem deglutíveis a baixo custo, então linearidade é o que se pode esperar deles.

A palatabilidade, em Conniff, não é problema. O assunto que ele aborda é tão intrigante que não exige marcas pessoais de estilo. Seu volume é estruturado em capítulos que abordam, cada um de seu ângulo, um aspecto específico dos abastados. O texto é guarnecido de boa pesquisa histórica, que fornece causos hilários do hi-society, e de vivência nos campos de estudo da biologia, que trazem paralelos esclarecedores do comportamento de cada uma das classes humanas.

Fora o aspecto da diversão, que abunda nestas páginas, vale ressaltar que sua auto-estima pode oscilar fortemente. Por um lado, somos apresentados a ricos de verdade, que fazem o abonadinho da mansão da esquina parecer um novo-rico dos mais furrecas; por outro, temos a alta cúpula despida ao nível de seres humanos tão, ou mais, idiotas do que nós mesmos.

Pirandello é bem mais sisudo: se existem risadas neste livro, eu realmente não consigo lembrar de nenhuma delas. Pudera: seu protagonista, Moscarda, é um perdedor, um nulo à sombra do pai morto, se acotovelando entre os administradores do banco que lhe foi legado, e uma esposa por cujo amor não tem mérito algum. Temos uma cachorrinha também, Bibi, que só serve para reforçar o sentimento de inutilidade de nosso pretenso herói.

O texto é cansativo nos momentos em que Pirandello considera que seu achado é realmente uma idéia extraordinária. Não que eu desmereça sua reflexão existencial: é que cansa quando se observa que diversas linhas são gastas no reforço do conceito em lugar de serem utilizadas na criação de conseqüências mais ricas.

O destino do protagonista é por demais óbvio, o que aproxima, em certos momentos, a leitura de um cumprimento de tabela. O que mantém uma certa tensão são os acertos esporádicos de Pirandello, momentos em que o leitor pode ser exposto a reflexões profundas e inesperadas. A proposta miríade de percepções de uma mesma pessoa por seus diferentes pares poderia ser melhor explorada, mas este é um defeito menor.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Livros na Praia

  1. Christian disse:

    Essa capa do livro do Conniff é impagável.

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