Smells Like Stinky Spirit

Um dos traços que mais me fascina no comportamento humano é a noção exata de que os costumes dos outros é que são esquisitos. Em termos de linguagem popular, é a discrepância entre a percepção que temos do nosso telhado e a que temos do telhado do nosso vizinho.

Apesar da analogia ter ido se alojar na parte alta de nossas habitações, ela surgiu no exato oposto estrutural, quando eu passava ao lado do cemitério do Itacorubi. O odor nas redondezas não costuma ser dos melhores, e eu ainda não descobri se o mau cheiro se deve às profusas flores, que vão fenecendo sobre as lápides, ou ao conteúdo sob elas.

Existe toda uma gama de sensações naquela vizinhança, e elas são regidas pelos humores diversos do clima. Até a última semana de Dezembro, era a água tenebrosa correndo sobre o asfalto, vinda de vertedouros localizados dentro e fora do cemitério, e trazendo sabe-se lá que elementos em suspensão; por via das dúvidas, eu sempre diminuía o ritmo das pedaladas, de modo a evitar respingos estranhos na roupa. Creio que eu não seria bem vindo ao meu local de trabalho se estivesse com o odor característico de um figurante de filme do George Romero.

Nesta semana, o asfalto estava quase seco, e pude passar em velocidade normal. A subida da ladeira, entretanto, pede respiração mais vigorosa, com tragadas fortes de ar. Com o calor, os miasmas se animam a deixar a terra cavalgando as linhas de convecção, e com uma intensidade tal que é difícil não acionar canais de sinestesia referenciáveis a, por exemplo, alguns dos exemplares de Pet Sematary.

O panorama é desolador: um terreno enorme, tão ocupado que não permite calçadas ou acostamentos ao seu redor, todo destinado a ocultar cadáveres. Toda uma área de terra irremediavelmente perdida, onde os corpos em putrefação contaminam o solo e suas exalações, o ar.

Este costume é tão normal, que provavelmente nem paramos para pensar. Provavelmente nem atentamos para o fato de que podemos morrer a qualquer instante, e que deveríamos definir logo onde queremos ser despejados para passar a vida eterna ou simplesmente curtir o apodrecimento, conforme as crenças de cada um. De minha parte, me peguei aventando a possibilidade de pesquisar os preços oferecidos pelo nosso atual único crematório.

Algumas aldeias da América do Sul, conforme Clastres, costumam queimar seus mortos, reduzindo-os a cinzas, que serão consumidas pelos vivos temperando uma pasta de banana, em cerimoniais específicos. Outros povos têm o costume de comer a carne dos mortos, embora eu acredite que carne idosa não seja lá muito apropriada sem um longo cozimento. Existem ainda alguns grupos da Ásia que colocam os cadáveres de seus parentes sobre rochas para que os urubus venham devorá-los; em suma, o pessoal é criativo no que tange a descartar os presuntos passados.

Dado que sou preguiçoso, não pesquisei mais sobre o assunto, mas acredito que uma rápida passada pelo google deve levantar mais uma dúzia de formas bizarras de destinação de mortos. Tão bizarras quanto um cemitério, ocidental, civilizado, capitalista, católico e contemporâneo, aqui perto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Smells Like Stinky Spirit

  1. Thiago Rocha disse:

    Sintomas da idade, meu caro?

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