Lewis Carroll: Alice

As Alices, de Lewis Carroll, são textos mais comentados e citados do que lidos. Antes de prosseguir, assumo a vergonha de me incluir no time dos filisteus que só lançaram os olhos sobre este texto essencial apenas em sua terceira década de vida. Os dois volumes, No País das Maravilhas e Através do Espelho, estão longe da perfeição estética, mas encerram características que os colocam em um patamar, no mínimo, curioso.

O Diácono Dodgson, verdadeiro nome de Carroll, era uma perfeita cria de seu século, e, portanto, tão esquisito quanto se possa supor. Passou quase toda a vida recluso, e tinha algumas predileções que teriam o colocado em péssimos lençóis caso ele nos fosse contemporâneo. Ainda que não fosse um escritor excepcional, possuía uma imaginação grandiosa, e um gosto especial por enigmas e paradoxos, que fazem o charme de ambas as Alices.

A obra de Carroll e sua pessoa receberão estudos e interpretações os mais diversos, e não pretendo me meter a sabido com estas pessoas; nada tenho a acrescentar às pilhas de escritos sobre o assunto. O que me intriga nestes dois exemplares é que ela se apresenta como um dos últimos esforços no sentido da criação de mitos. No século XX, muito se fez para reciclar, diluir, colorir e emular as histórias de fantasia da Europa medieval, mas quase nenhuma linha realmente criou mitos contemporâneos.

O final do século XX e este início de século XXI demonstraram, até agora, uma voracidade ímpar, tomando as histórias da Velha Europa, e as transformando em pastiches e paródias que, quando muito, proporcionam algumas gasgalhadas esparsas, como em Shrek e nos filmes de Picha. Mesmo escritores sérios, como Neil Gaiman, apenas se apropriam de um patrimônio do passado, e o reconstróem em novas formas. Neste sentido, as Alices são o testemunho de uma era que não se repete. Senhor dos Anéis, outra lacuna, outra leitura que eu deveria ter feito na adolescência, talvez mudasse esta minha opinião.

Falando mais especificamente de qualidades literárias, vale comentar que entre os dois textos alguns anos se amontoam. Enquanto o País das Maravilhas rescende a improviso e a oralidade, o Outro Lado do Espelho mostra-se melhor estruturado, com ciclos internos que se referenciam em partes diferentes do livro, e com aparente maior reflexão do autor.

Um dos pontos que me intriga em ambas as Alices é a ritualização dos perigos, e da própria violência. A sensação que me ocorre é a de que existem eventos tenebrosos aguardando atrás de cada árvore das florestas nonsense dos mundos alternativos, mas Carroll as esconde de suas ouvintes, protegendo-as. Para o leitor adulto, entretanto, fica um suspense contínuo, que não se consuma exceto nas reflexões complementares do observador.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Lewis Carroll: Alice

  1. Pingback: Tim Burton: Alice « sinestesia

  2. Roberta disse:

    Pois é, tentei ler Alice no País das Maravilhas e não gostei. Fui ler exatamente por causa do todas as teorias legais sobre o livro, mas tive a mesma impressão que tive quando fui ler o Hobbit: que é um livro para criança. E foi escrito para ser mesmo, né?

    Às vezes adaptação de um livro para outra mídia estraga tudo, mas tô começando a achar que às vezes resolve tudo.

    Bjos!

    • gilvas disse:

      escrito para crianças? pode ter sido, mas, no processo de leitura, a metade leitor pode interpretar de forma distinta. é difícil ler alice sem disparar dezenas de metáforas, de modo que ele se torna, para um adulto, um livro para adultos.

      gostei da adaptação de tim burton para fábrica de chocolate, mas não estou muito confiante com esta adaptação de alice. tenho medo de ter muita cantoria. o roteiro deve ser, burton costuma ser muito feliz com suas adaptações, criando novas obras, e não apenas tentando a transcrição de mídias, esta sim é uma empreitada de possibilidades castradas e resultados duvidosos.

  3. Pingback: Xadrez da Alice | A vida como a vida quer

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