As Expectativas de Murphy

Depois de dez anos como usuário assíduo da Internet, é possível perceber alguns padrões no tipo de correspondência indesejada que vem se alojar em minha caixa de mensagens. Os perfis se diferenciam conforme falo de minha caixa de mensagens pessoal ou da equivalente profissional, mas, dentro de cada uma delas as coisas são claras, caberiam dentro de uma distribuição normal sem maiores melindres.

Existe a correspondência indesejada sazonal, onde o exemplo mais marcante é o das festas de final de ano, e existe uma divisão justa entre celebrações e sátiras desses eventos. Possivelmente, as sátiras sejam, no final das contas, celebrações: se existe a vontade de avacalhar algo, existe neste mesmo ser o ímpeto secreto da admiração. Alguém disse que toda verdade está grávida de seu contrário; se não é exato no aspecto filosófico, pelo menos serve como uma excelente frase de efeito para os botecos da vida.

Apesar de ter começado pela correspondência indesejada sazonal, era de um tipo independente da época que eu pretendia falar. Um tipo que depende de caprichos estatísticos, ou de alguma patuscada que reavive o lado funesto de alguma celebridade de segunda. Falo hoje das Leis de Murphy, e talvez seja inexato reduzí-las ao universo da Internet, dado que já existiam antes da rede mundial, e permeiam mesmo o vocabulário de gente que não navega, ou que o faz de forma esporádica.

Recebi pacotes diversos das Leis de Murphy: foram textos secos na era do Telnet, mensagens repassadas dezenas de vezes e recheadas de sinais de “maior que”, apresentações lerdíssimas de Power Point, algumas com as letras aparecendo uma a uma, outras com músicas inconvenientes, todas chatíssimas pela repetição. Hoje em dia sou o tipo de pessoa rabugenta, que olha feio quando alguém exclama, diante de alguma situação azarada, “Murphy já dizia…”, ou algo do mesmo calibre.

Entretanto, não convém amofinar meus pensamentos e meu fígado com tais considerações raivosas, e sim conduzir este tipo de situação para análises grandiosas, ou nem tanto, sobre a natureza humana. Pensando assim, reparei que as Leis de Murphy nada mais são do que um compêndio de situações práticas onde a expectativa atua sobre a realidade percebida pelo ser humano.

Um exemplo: “Um dispositivo terá maior probabilidade de queimar justo quando mais precisamos dele”. Ora, se podemos passar bem sem um certo dispositivo, sua falha entrará para um registro de pouca importância em nossa memória. Se, por outro lado, ele pifa quando precisamos entregar algum trabalho ou relatório crucial para nossa sobrevivência, seu crime se torna inafiançável, e gera o sentimento, largamente documentado, da crueldade intrínseca dos objetos inanimados.

Alguns corolários das Leis de Murphy falham antes disso, como aquele que diz que “Quando ligamos para um número errado, ele nunca está ocupado”. Ora, pipocas carameladas, se o número discado estiver ocupado, nunca saberemos se era o certo ou errado. A menos, é claro, que sejam verificados os números discados posteriormente, mais isto é algo metódico demais para seres humanos normais executarem no sossego dos seus lares.

A maior parte das Leis de Murphy, todavia, trata de expectativa. Existe uma vontade de repetição de eventos passados, quase como o que busca-se quando se vai em uma lanchonete de franquia: o sanduíche que vamos comer será idêntico àquele que comemos na semana passada, em todo o país. Esta vontade existe principalmente quando o ser humano quer repetir uma experiência boa, então é possível que o exemplo do sanduíche não se aplique tão bem.

Como a Geração Y viu em Matrix, a nossa realidade pessoal é moldada por nós mesmos. Temos o poder de perceber de formas distintas um mesmo acontecimento, embora este negócio de lutar kung-fu ou pilotar helicópteros escape ao escopo de uma análise calcada no budismo, ou mesmo no Paulo Coelho quando ele recauchuta Aleister Crowley. A auto-sugestão é poderosa, a ponto de não percebermos que não fizemos uma análise de falhas das coisas ao nosso redor, pelo menos não dentro de uma perspectiva linear e bem documentada. Comprimimos o tempo conforme os pontos que ativaram gravação em nossa memória, e não conforme uma escala padronizada.

Junte a vontade de repetição à não-linearidade da memória, e o universo realmente parecerá o tipo de lugar que está zoeira contigo. Os momentos de azar conseguirão ocorrer justo nas piores horas, e eu espero poder terminar de escrever este texto antes que ocorra alguma falha neste computador.

O que não prova nada, afinal escrevo por pura e simples diversão, e este texto não é vital para minha existência como ente economicamente viável. Se fosse para provocar Murphy, talvez eu devesse lavar meu carro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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