Aldous Huxley: Sem Olhos Em Gaza

O meu primeiro Huxley foi o de Admirável Mundo Novo. Assim como de muitos ele é o único. Vergonha menor, que empalidece diante da de nunca ter lido a distopia primordial e essencial de toda uma batelada de ficção científica desesperançada que se seguiu.

Curioso é ler um segundo Huxley, e este lembrar tão pouco minha empreitada anterior. Devo dizer ainda que nem seria exatamente o segundo, mas o terceiro, pois li, muito tempo atrás, um conto de Huxley, e que se aproximava mais deste Sem Olhos em Gaza do que de seu fenomenal exemplar de futurismo desolado.

Huxley sugeriu influências de Proust neste livro, e seu Anthony não deixa de cumprir o que esperamos dele. Com algumas diferenças. Quando a narrativa começa, a mãe de Anthony já está morta, e só a conheceremos por vagos fotogramas secundários ao longo da trama.

A época é outra, é notável. Huxley ainda trata seus personagens como um narrador onisciente, e sua prosa bem cinzelada rescende ao estilo digerível e bem formatado que caracterizava diversos realistas. Se o autor se permite aventuras, é no uso de uma espécie de não-linearidade contida. Os capítulos não se sucedem sobre uma linha do tempo, e, os planos temporais tampouco se distribuem de forma comportada; antes se acotovelam, buscando sobressair-se na frente do leitor.

Escrito na década de 30, Sem Olhos em Gaza consegue escapara à sua era, em parte por se furtar à modernidade de estilo. Caso tivesse se servido intensivamente de fluxos de consciência, poderia embarcar numa viagem enfadonha em direção à cafonice. Não, Huxley é contido e correto, e diversos de seus diálogos conseguem transpor as barreiras do tempo, podendo ter sido realizados na luz de algum dos dias contemporâneos. Senti isto principalmente nas passagens em que Miller e Anthony conversam no México.

O caráter autobiográfico assombra as páginas sem engessá-las. Huxley até tenta deslocar seu foco para outras paragens do palco, mas é em Anthony que residem as decepções, os amores, as traições e a referência para o restante das personagens. Desde a confusão da infância, passando pelo pedantismo idiota da adolescência e desembocando na versão apócrifa de budismo que empresta de Miller, Anthony é quem melhor se deixa entrever pelo leitor.

O que não significa, todavia, que Huxley não caminhe pelo cenário. Sua galeria de personagens pode ser muito acurada, como quando descreve Gerry, um cafajeste detestável, Hugh, o romântico lamuriento e pedestáltico, ou Mark Staithes, o fanfarrão que cansa do jogo cedo demais.

As mulheres sofrem em seu papel no universo de Huxley. As duas Amberley, mãe e filha, passam pela vida de Anthony, cada qual deixando marcas pela própria idiotice dele. O evangelho de Huxley, embora não pregue abertamente, fala de homens idiotas que traem seus amigos pro conta de mulheres frívolas e inconseqüentes, as quais acabam por sofrer também as derrocadas da vida. Entretanto, como são voláteis e volúveis, simplesmente se encaminham para outras partes da história, reclamando e se apaixonando por novos garotos e suas idéias de garotos.

A intenção de focar em Anthony deixa de apresentar qualquer dúvida na última folha, ou talvez antes, mas apenas aqui se tem certeza. O protagonista, possivelmente purgado depois de ter narrado sua aventura, se encontra num dilema existencial, onde sua nova ideologia, ou falta de, lhe deixa para definhar. Como em um surto de iluminação, ele acaba por se encaminhar para onde sente que deve ir, o que fica em aberto, sem, porém, pedir explicação. O que houve com Mary, Hugh ou Mark? Não interessa. Anthony é que fica com sua refeição espartana, a preparar-se para seu desafio. Nós sabemos, e talvez ele soubesse, que logo toda a efervescência desabaria, como ele já entrevê em suas considerações. Ali começava a caminhada para a segunda guerra e para as ditaduras monstruosas que se seguiriam, mas Anthony só sabe pregar sua paz recém-adquirida e ainda não quitada.

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Sobre gilvas

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2 respostas para Aldous Huxley: Sem Olhos Em Gaza

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