Stephen King: O Cemitério

Foge à minha compreensão imediata a razão pela qual as pessoas lêem livros de ficção que as deixam desconfortáveis. Fossem ainda volumes ditos filosóficos ou da alta literatura, eu ainda entenderia. Seria um tributo ao pensamento de Kafka, por exemplo, que dizia que seus livros não eram entretenimento, mas sim machados para abrir as cabeças daqueles que os liam. O escritor austríaco visava perturbar, de modo a arrancar as pessoas de sua zona de conforto.

Esta louvável intenção, todavia, não é o que devemos esperar de Stephen King, que habita uma região do meu universo literário bem mais próxima de Sidney Sheldon do que do supracitado Kafka. Ainda que mergulhe nas sombras da alma humana, King busca um insuspeitável viés lúdico nestas incursões, e algumas cifras; sua competência, enfim, reside em tramas que nos prendem a seu universo criado, nos distraindo de nossas trivialidades cotidianas.

A versão de Mary Lambert para as telonas antecedeu em muito a minha leitura de O Cemitério. A cópia em VHS, que fiz em nosso velhíssimo Philco-Hitachi de duas modestas cabeças, era dublada, e rodou quase uma dezena de vezes. Às vezes era o horror da visão de Zelda, em outras era Church cambaleando, ou mesmo o cachorro de Jud, que fazia sua aparição por trás do pano pendurado no varal, com aquele olhar que não era mais dele.

O filme é fiel ao livro, e, pela minha memória, diverge apenas onde realmente deveria. Nesta época, inclusive, King já devia enxergar a transposição para o cinema quase automaticamente, então Lambert e seu roteirista não precisaram se esforçar muito.

Escrever sobre este texto é bastante assustador. Estou sentado em uma cadeira em meu apartamento, e há um gato por aqui. Além dele, apenas eu. E o Homem do Sofá, que não aparece há algum tempo. O vazio do espaço engendra alguns silêncios pouco amistosos, como se estivessem recheados de seu inverso, quase uma versão movida a arrepios da elucubração budista de Fritjof Capra. Melhor não deixar a mente voar, amigo.

Em certos momentos é possível manter um distanciamento crítico do texto de King. Assim disposto, nota-se uma estrutura que busca a eficiência. Os contornos da vida de Louis são delineados com uma perfeição quente e pulsante. Suas relações, com seus filhos, com sua esposa, com seus sogros, com os vizinhos, com os colegas, todas são viáveis; mesmo quando são inexplicáveis, são viáveis, e isto basta para aproximar o leitor.

King também consegue se manter numa zona bem resolvida entre a narrativa onisciente e o fluxo de consciência. Com isso, mantém uma linha firme na trama ao mesmo tempo em que garante as faltas de linearidade necessárias para que a verossimilhança se instale.

A quantidade de elementos impressiona. As mortes, para começar. Morre gente a torto e a direito. As mortes podem ser banais: acidentes de trânsito, a guerra, sacrifício por conta de doença incurável, atropelamento, velhice. Elas ocorrem o suficiente para criar uma nota continuamente percutida, gerando um ruído de fundo constante. É o ranger da morte, que raspa o silêncio incansavelmente.

O pacote King não estaria completo sem as crianças perceptivas. Eileen é da mesma cepa que o garoto em O Iluminado. Ela é a rocha firme e assustada em meio a um turbilhão humano de loucura e dor, sendo que ela compartilha está ultima com os seus familiares. O cenário desolado das zonas pouco habitadas também é um fetiches de King, assim como um verniz de diversas camadas de religiões distintas. As relações familiares doentias, com seus segredos e suas secretas sinceridades, são também importantes. Vale ressaltar que os pais de Louis quase inexistem na trama. Mesmo a inserção de elementos de cultura pop, como programas de tevê ou canções dos Ramones, são apenas ferramentas para dissociar ambiguamente as percepções, nublando as fronteiras entre os mundos do livro.

O escritor encharca suas páginas de uma tensão baseada em todos estes elementos acima, mas mantém a sobriedade. Ele nos mantém acordados, ou meio acordados, e atordoados com uma tática de constrastes. A família chega e descobre seu paraíso interiorano, mas apenas o suficiente para que Pascow apareça com a cabeça arrebentada no ambulatório, e mais tarde no quarto de Louis. A caminhada profetiza uma trilha de loucura e sangue, mas, assim como Louis, nós sabemos que nada vai acontecer, chafurdamos no ceticismo ateu, nos consideramos cientistas, zombamos das crenças daqueles índios canadenses e seus vendigos, monstros que incitam o canibalismo nas pessoas pela simples passagem. São desculpas pelos impulsos de selvagens, é claro.

E assim ele segue, nos tirando da água morna para a fria, depois para a quente, novamente para a fria, um pouco na quente, ops, descanse na banheira morna, tchá, fria de novo, e assim nos carrega até que Oz, o Gande e Teível enfim domina. Daí em diante, é a opressão que comanda, e todos estão perdidos.

O cemitério micmac é colocado no livro de uma forma distinta da do filme. Lambert deve ter tirado esta referência porque ficaria muito pesada na telona, mas o cemitério micmac, e sua contraparte preparatória, dos pequenos animais, os dois são parte de um conjunto fantasmagórico e poderoso inscrito em espirais e pedras soltas. Louis não tem escolha, assim como Jud. Tudo o que ele faz é sobre-humano, e as descrições insistem em frisá-lo. As seqüências da exumação de Gage, por exemplo, são inviáveis; nenhum ser humano conseguiria fazer aquilo, e King sabe disso. Ele nos joga na cara um personagem que não domina seus atos, e um títere abstrato que não se preocupa em ser atraente; o cemitério simplesmente agarra Louis como se este fosse um pequeno boneco nas mãos de Zelda, mãos encarquilhadas, de passarinho.

Estou chegando às páginas finais, e não decifro ainda qual é o fascínio. Fosse ainda na tela, que nos mantém a uma distância razoável pelos pequenos deslizes de atuação, e seria fácil entender. Os truques de maquiagem e de luz são encantadores, verdadeiros desafios a fazer em pedaços. A página, por outro lado, é nos agarra e nos coloca perto demais do bafo do mal, nos transtorna ao seduzir-nos pelo ritmo. Realmente, não há o que entender, mas apenas a aliviar quando o horror extrapola o aceitável. Nestas horas, procuro pensar no cemitério micmac como o lugar onde a Marvel leva seus personagens para ressuscitar, e a visão dos colantes coloridos saindo de baixo das pedras me deixa mais tranqüilo.

Um trecho, da página 94, quando ainda existe uma oscilação entre horror e realidade, logo após Church ter sido deixado sob as pedras por Louis.

(…)
Uma sombra volumosa, disforme, se ergueu nos ladrilhos da parede. Como a cabeça de um pequeno dragão ou de uma serpente monstruosa. Alguma coisa tocou-lhe o ombro nu, algo que deslizava. Louis recuou num repelão, derramando água pela borda da banheira e encharcando o tapete de espuma. Depois se virou, o corpo contraído… E defrontou-se com os olhos turvos, de um verde amarelado, do gato da filha. Church havia se empoleirado na tampa do vaso sanitário.

O gato parecia oscilar lentamente de um lado para o outro. Como es estivesse bêbado. Louis o fitava, repugnado, um grito contido pelos dentes cerrados. Church nunca tivera aquela aparência, nem antes nem depois de ser castrado; nunca balançara, como uma cobra tentando hipnotizar sua presa. Pela primeira vez, assaltou-lhe a idéia de que aquela seria um gato diferente, um gato que apenas se parecia com Church, um gato que entrara por acaso em sua garagem quando ele estava fazendo aquelas prateleiras… o verdadeiro Church continuava enterrado sob um monte de pedras no penhasco do bosque.
(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Stephen King: O Cemitério

  1. Mariana disse:

    puxa
    esse livro é realmente assustador! não consegui dormir depois de ler
    King devia lançar a continuação, pois eu queriaver como está Rachel! Ela morreu!!Aliás… E Ellie?? Ela ficou em Chicago?? Gage foi tocado pelo vendigo?? Louis é louco??Perguntas que eu gostaria de ver respondidas! E o pricipal
    Essa lenda é verdadeira?

    • gilvas disse:

      aparentemente, a lenda não é verdadeira. king se inspirou em alguns acontecimentos pessoais, como o cemitério de animais em que o gato da filha de alguns vizinhos foi enterrado, e a morte de um garoto numa estrada que passava diante da casa dele. a continuação, nos cinemas, mantém o primeiro livro/filme apenas como uma história contada pelos locais, sem retomar nenhum dos destinos dos personagens do livro. por mim, deixar estas pontas soltas foi uma forma de king deixar o mistério ainda mais saboroso. o absurdo costuma reforçar o medo causado pelo desconhecido.

  2. Pingback: Diehl e Donnelly: Devorando o Vizinho « sinestesia

  3. Samuel disse:

    Olá Gilvan! caramba, vc curte King? Já li praticamente todos…E Wilde também. Já leu A Incendiária, 4 Estações, Os Estranhos, Eclipse, Jogo Perigoso, Insônia? São ótimos.Na minha opinião, todos melhores que O Cemitério. King era muito jovem quando o escreveu e ainda estava “maturando” seu estilo.

    Belo Blog. Está nos favoritos.

    Abs

    Samuel

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