Michael Ondaatje: Buddy Bolden’s Blues

Buddy Bolden’s Blues não é, definitivamente, o melhor livro de Michael Ondaatje. Falta a ele o universo sensível de Bandeiras Pálidas, no qual o leitor podia tocar as pessoas, sentir os cheiros, mergulhar nas clareiras de florestas recriadas com a perfeição de um pintor impressionista de raro talento. Este volume carece também da diversidade humana que habita O Paciente Inglês.

A explicação mais óbvia é de que se trata de seu primeiro romance, o resultado de uma pena ainda não tão exercitada, de uma escrita menos refinada e que iria ganhar sutileza com a experiência. Sintomático é que Ondaatje não consiga absorver todo o material de pesquisa em seu texto, dispondo os retalhos quase como um apêndice ao final do bloco ficcional.

Outro aspecto a pesar é a distância que o assunto tem da realidade de Ondaatje. Bandeiras Pálidas se passa em seu país de origem, Sri-Lanka, e O Paciente Inglês tem um dos protagonistas na pele de uma enfermeira canadense realocada em uma paisagem estranha. A pena de Ondaatje consegue fluir de forma mais livre quando ele escreve sobre uma parte de sua própria pele.

Entretanto, não se engane: Buddy Bolden’s Blues é uma peça de escrita acima da média. A poesia emana da folha com leveza, e não nos deixa esquecer que Ondaatje é o sucedâneo literário de um Sebastião Salgado. Assim como o fotógrafo brasileiro, o escritor extrai beleza ímpar de situações tristes, dolorosas; feias, em última instância. A vida miserável dos guetos negros em Nova Orleans em seu conflito com a efervescência da criatividade musical traz cenas belíssimas sobre as páginas. São putas mutiladas que fogem de seus cafetões, é o desejo cru e direto, são as brigas sórdidas onde sobram navalhas e cortes, é um universo ainda carente dos benefícios da ciência e escravo de relações sociais degradantes.

Dos recortes de jornais, de uma foto, das lembranças carcomidas de velhos, de localidades em cores esmaecidas, desta montanha de cacos inconclusos e inexatos é que Ondaatje tira um miolo para seu escrito. Ele romanceia a vida de Bolden, um lendário músico de jazz, responsável por um jeito peculiar de tocar, e que viveu uma existência também peculiar, morrendo aos trinta e um anos, louco e miserável, alienado e irrecuperável.

Longe de tentar explicar ou racionalizar as ações de Bolden, Ondaatje cria formas em seu universo a partir dos poucos pontos de referência que possui. O estilo fluido do escritor se adapta perfeitamente à escassez de informações e aos estranhos percalços que Bolden arranja para si. O descompromisso com a linearidade, na narrativa, coaduna com os passos errantes de um protótipo de boêmio aloprado.

Um ídolo de influência apenas em uma área minúscula, Bolden vive nas páginas inventadas de Ondaatje. Uma grande sorte. E, se foi realmente um músico relevante, justa.

Uma amostra, retirada da página 99 da edição brasileira. Bolden está recluso na cabana de campo de seu amigo Webb.

(…)

*
Vou lá fora e mijo no seu jardim. Quando volto para a varanda o cachorro está bebendo na tigela d’água tentando evitar as folhas amarelas que nela bóiam. Sem a menor pressa ele posiciona o corpo na posição perfeita para enfiar a língua entre os amarelos e chegar à água invisível. A língua se enrosca e captura a água. Ele entra em casa comigo, restos de água escorrendo das mandíbulas. Dentro da casa corre de um lado para outro para desprender do corpo o ar frio da noite.

(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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