Capitalismo pt II: Impermanência

O capitalismo reinventa valores com uma criatividade invejável. Um exemplo é o conceito de Impermanência, que acompanha o desapego em diversas formulações filosóficas orientais, notadamente o budismo zen. Esta absorção é anterior à onda de nova era que atravessou o mundo ocidental na década de noventa, e que deixou edifícios em diversos quadrantes da auto-ajuda.

O budismo zen, apesar de sua difusão em nosso lado do planeta, ainda encanta mais pelo exotismo do que pela efetiva penetração ideológica. Este é um dado que eu deveria pesquisar melhor, e eu poderia ao menos tentar descobrir quantos assinantes embustes como Vida Simples têm, mas eu nunca fui conhecido por elucubrar com muitas bases, então esqueça.

A impermanência, por outro lado, ganhou assento na grande assembléia de conceitos subvertidos do capitalismo internacional. Em sua encarnação de motor ideológico de um sistema econômico, ela dá comburente para as estruturas produtivas industriais. A impermanência veste um manto pesado quando está a serviço do capital; como em um seriado maniqueísta em reprise na rede globo, ela tem uma barbicha e sobrancelhas pesadas.

Os produtos, pela lógica do processo industrial massivo, devem ser impermanentes. Os mais ingênuos observam que as coisas já “não duram como antigamente”. Pode ser um fator: a otimização produtiva leva a produtos com dimensionamento mais criterioso, sem folgas, sem o que engenheiros chamam de “fator cagaço”. Entretanto, os produtos não estragariam tão mais rápido assim; nós é que não nos dispomos a executar o que terceiro-mundista aprenderam a fazer melhor, a saber, a boa e velha gambiarra. Com manutenção e jeitinho, mesmo os produtos de hoje poderiam ir adiante mais algum tempo.

A obsolescência tecnológica muitas vezes age por conta de infraestrutura em andamento. A tecnologia disponível para celulares, por exemplo, ainda não estabilizou em um patamar ideal. Questiono, inclusive, se deveria ter sido comercializada antes de ter seus efeitos devidamente estudados. É a ansiedade, que nos faz desejar coisas incompletas, e gerar toneladas de lixo com elas.

E existe a má-fé. A moda é a principal vertente da impermanência corrompida. Os anos se sucedem para que fabricantes de roupas venham com novos modelos, os quais tornam obsoletos e jecas aqueles que tínhamos em nossos guarda-roupas. Ainda que houvesse um sensível maior efeito sobre as mulheres neste setor, isto mudou; a máquina industrial soube manobrar para atingir os machões mais renhidos, que se regojizam com carros e brinquedões supérfluos à socapa.

Os computadores podem estabilizado sua derivada monstruosa de MHz aquém da dezena de GHz, e os processadores múltiplos podem ser apenas ferramentas pouco aproveitáveis, mas ainda existe uma arena de computadores portáteis onde lutar, sem falar nas dezenas de quinquilharias associadas conectadas por redes via rádio e filmes de alta definição.

Esta impermanência distorcida e ávida está no exato oposto do que representa o conceito zen-budista. Os pensadores desta linha ficariam quase orgulhosos em observar como o yin e o yang são abrangentes. Os paradoxos podem ser problemáticos para nossas mentes cartesianas, mas convivem bem com as outras idéias em cabeças taoístas, por exemplo.

Um dos paradoxos mais óbvios na seara capitalista é o da alimentação apressada. A comida é um item onde a impermanência é intrínseca: você adquire o produto, e a única opção é o consumo dele. A ironia está em querermos que a experiência se repita: o meu sanduíche de hoje deve ter o mesmo sabor, a mesma consistência e os mesmos efeitos daquele que comi ontem, e amanhã deveremos ter a mesma situação. O sanduíche, que deveria conter a essência de uma quimera passageira, apresenta-se como uma realidade a manter. O meu aparelho de comunicação celular, por outro lado, sinto-o envelhecido e obsoleto rapidamente; preciso trocá-lo por um novo, diferente e melhor.

Leia também: Capitalismo pt. I, Sobre As Ondas, Lost, Simples.

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