Jason Socrates Bardi: A Guerra do Cálculo

calculo

Jason Socrates Bardi, autor de A Guerra do Cálculo, propõe-se a contar uma das mais interessantes histórias acerca da ciência, a saber, a briga entre Newton e Leibniz pelo reconhecimento da criação do cálculo diferencial. Bardi descreve as vidas de seus dois retratados desde o princípio, sublinhando fatores que potencializariam o conflito entre no século XVIII.

A bibliografia é extensamente levantada, com dados interessantes e um bem resolvido encadeamento de fatos. Se existe uma falha, ela está na repetição de dados dentro do texto. Algumas informações são fornecidas em uma parte do texto, e, poucas páginas depois, elas se repetem, sem mudança de enfoque ou estilo, o que justificaria, em parte, um possível reforço de um evento descrito. Isto é sintoma de uma provável fraca revisão ou pressa do editor.

O texto não encerra brilhantismo em sua construção; Bardi busca antes um estilo limpo, e a descrição imparcial dos eventos. Este estratagema faz com que o texto perca o impacto imediato em favor da verossimilhança. Particularmente, eu me valeria mais das intrigas e fofocas para apimentar, mas Bardi é um narrador correto: alimenta-se de documentos às dezenas, e busca reconstruir apenas quando as ruínas deixadas pelo tempo o permitem fazê-lo.

Para o leitor fica o dever de especular, lançando cores, muitas vezes incorretas, sobre as linhas contidas de Bardi. Leibniz e Newton tinham bastante em comum quando adultos: ambos eram cientistas geniais, localizados numa encruzilhada da história onde o método experimental começava a se tornar difundido. Os dois souberam se aproximar do poder para buscar recursos para as ciências que tanto amavam. E eram dois nerds renhidos: Newton morreu aos oitenta anos virgem, e Leibniz não ficou muito atrás. O cotidiano da ciência permitiria uma bela coluna semanal de fofocas, pois sempre se podia contar com Hooke, o cara da constante das molas e também um encrenqueiro de primeira, barraqueiro de dar inveja a peruas de novela das sete.

Uma especulação interessante reside na atitude de homens de ciência, homens geniais que, pelas circunstâncias, acabam por se colocar em cargos aparentemente aquém de suas respectivas qualidades. Newton terminou seus dias como chefe da Casa da Moeda e passou por fases depressivas estudando alquimia, e Leibniz, por seu turno, se comprometeu a redigir a nada interessante saga da Casa de Brunswick. Para um homem que se adiantou a seu tempo, percebendo, por exemplo, insights nada triviais sobre geologia, como o alemão, ou para um homem que elucidou o mistério das órbitas, constando do currículo de física até hoje, como o inglês, é muito pouco.

Tenho cá minhas teorias sobre isto. Seria o fosfato limitado, mesmo em um gênio, e grandes períodos criativos o consumiriam, nada restando para outras épocas? Teria o gênio se cansado de não ser compreendido adequadamente por seus pares? Seria o caso de perder os amigos por não ser medíocre, como dizia Oscar Wilde? Independente do que movia, ou deixou de mover, estes gênios, minha faceta profissional deve muito a eles. Talvez as disciplinas de cálculo não fossem tão chatas se soubéssemos dos bastidores de sua criação, e dos problemas que eram de difícil resolução antes da invenção desta fenomenal ferramenta.

Um trecho, da página 103.

Esta (o uso do novo simbolismo para a integral, o “s” estilizado) era uma idéia que muito interessava a Leibniz, o qual sempre preferiu os fins utilitários. Mesmo quando era mais jovem, ainda um noviço em matemática, ele tinha muito interesse em que as comunicações fossem facilmente entendidas. Elogiava, por exemplo, o trabalho de um filósofo de nome Nizolius, não pela filosofia deste, a qual, em sua opinião, continha muitos erros, mas pelo seu claro estilo literário. Realmente, Nizolius havia proposto que qualquer coisa que não pudesse ser descrita usando-se palavras simples empregadas no dia-a-dia era inútil. Atendendo a Nizolius, Leibniz recomendava que fosse evitado o jargão. De fato, uma de suas primeiras introduções à matemática, quando ainda estava no colégio, foi feita pelo professor Erhard Weigel, que tinha reputação de desarmar outros acadêmicos pedindo-lhes que repetissem seus argumentos latinos em alemão simples. Weigel instilou em Leibniz o amor pela simplicidade de linguagem.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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