Takashi Matsuoka: Bando de Pardais

bando

Bando de pardais não é um livro que tenha sido feito para mudar sua vida, mas vai agradar em cheio aos fãs do Japão e de sua cultura. A época escolhida é excelente: o Japão já havia sido derrubado de sua isolação secular, e a classe dominante do país se debatia em convulsões diante de um panorama desolador. Enquanto alguns refletiam e reconsideravam sua existência, a massa nostálgica recrudescia seu regime, uma ironia com o moribundo.

Matsuoka acerta nas caracterizações; deve ter estudado bastante antes de desenhar as paisagens onde o romance se passa e as relações entre as pessoas que populam seu livro. O Japão flui para dentro dos olhos do leitor, vivo e palpitante em suas contradições e suas bizarrices. A estrutura social é desenhada com o esmero que seria de esperar de um japonês, como as centenas de pequenas folhas que o artista de Vagabond teima, felizmente, em detalhar nos seus panos de fundo.

Genji, o protagonista, é usado para demonstrar diversos costumes japoneses da época, e o faz pela negação destes rituais e destes valores. Embora funcione bem no aspecto didático, coloca o personagem Genji em algumas situações constrangedoras, onde passa perto da inverossimilhança. Para sustentar a dignidade de um Grande Senhor, Matsuoka presenteia sua criatura com uma sabedoria incomum, que, à moda cristã, “escreve certo por linhas tortas”.

As cenas de ação são poderosas. As emboscadas são tensas, e desandam, inevitavelmente, para um derramento de sangue que se diria orquestrado em sua sede de representação. A noção de teatralidade, entretanto, não esquece de fornecer a real presença da violência, que se insinua pela visão, pelo tato, pelo cheiro, pela audição. O perigo se entranha em todas as passagens, numa noção de universo fechado em si, e cingido violetamente por forças estrangeiras. A combinação gera um andamento alucinante em diversas parte do livro.

Menos felizes são as descrições das personagens e de suas motivações. O ponto mais baixo são as motivações de Emily, que se baseiam, instavelmente, numa pretensa repulsa que os japoneses sentiriam por mulheres loiras de quadris amplos e seios generosos. Ainda que houvesse um ideal tão diferenciado de beleza entre as culturas, ainda assim seria difícil de engolir Emily sendo desejada tão freneticamente em sua terra natal.

Exagerada também é a imagem que se pinta de Shigeru, mas, neste caso, é diferente. Shigeru é uma personagem que se justifica em sua postura, sua posição dentro da família, e, obviamente, suas visões apocalíticas. Matsuoka consegue manter Shigeru sempre num patamar épico, suscitando arrepios em seu ideal do artista marcial. Não consigo imaginar um praticante de bokuto em mãos que não sonhe com a técnica de katana e wakisashi de Musashi, e o tio de Genji corresponde muito bem a este ideal.

Matsuoka tem outro ponto fraco nas relações triviais entre as personagens. Ele sabe descrever muito bem como todo o elenco se relaciona nas grades de hierarquia, mas falha na tarefa, árdua, de conferir verossimilhança às paixões e às curiosas motivações do ser humano. Este detalhe causa um estranhamento, um desconforto, que exige uma camada extra de concentração, e alguma imaginação, por conta do leitor, para preenchê-los de vida.

Com habilidade são evitados os deprimentes eventos que inevitavelmente, sabemos todos, ocorrerão logo depois da época em que se passa esta narrativa. Em O Último Samurai, o protagonista é Tom Cruise, então existe pouco impacto, para o expectador médio, na morte de um bando de guerreiros de olhos puxados e senso de honra exagerado. Em Bando de Pardais, o ocaso do samurai é utilizado para situar o roteiro e para justificar certas restrições úteis ao andamento da história. Assim que o leitor se encontra aclimatado, Matsuoka as coloca em segundo plano. Como no final de Gangues de Nova Iorque, os titãs de um reino obsoleto se debatem, mas as bombas não são mostradas.

Bando de Pardais é um volume de leitura rápida, com passagens ágeis, e estrutura semelhante à de Musashi. Suas quatrocentas e poucas páginas passam rapidamente, deixando uma vontade de ler mais sobre o assunto, e acompanhar um pouco mais as aventuras de Hidê, Taro e Shigeru.

Um trecho, da página 205-206:

(…) (Shigeru) Podia ver pela forma como Kawakami se aboletava sobre a sela que não era um grande cavaleiro, o que significava que podeira atingi-lo antes de ele manobrar o cavalo e fugir. Calculava a distância que os separava em cinco batimentos cardíacos. Antes, seria necessário matar uma dúzia de homens em seu caminho, mas isso não seria problema. Todos os oponentes em potencial estavam hirtos de medo. Sabiam-se praticamente mortos.
– Senhor Kawakami, que surpresa! – saudou-o Saiki, aproximando-se da tensa tropa com toda a naturalidade, parecendo não se dar conta das espadas desembainhadas – Gostaria de poder convidá-lo a entrar para descansar, mas, como o senhor talvez já tenha notado, nossas condições de oferecer hospitalidade estão um tanto restritas, no momento. Quem sabe em outra ocasião?
– Saiki, veja se consegue pôr um pouco de juízo na cabeça do Senhor Shigeru. – Kawakami afagou a crina do seu trêmulo cavalo. – Ele se recusa a permitir minha entrada, que se pauta em ordens do Xogum.
– Perdoe-me por contrariá-lo, Senhor Kawakami – tornou Saiki, caminhando diretamente para o cintilante semicírculo de espadas – mas creio que o Senhor Shigeru está certo em proibir sua entrada.
– Quê?
– De acordo com os protocolos de Osaka, o Xogum precisa informar o Grande Senhor de qualquer inspeção no mínimo duas semanas antes da data marcada. Como chefe da administração da província de Akaoka, devo lhe informar que meu senhor não recebeu tal notificação.
– Os Protocolos de Osaka estão duzentos e cinqüentas anos atrasados.
– Não obstante – disse Saiki, com uma grande reverência e um sorriso ainda maior -, ainda vigoram.
(…)

Leia também Gaudério e Zatoichi.

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Uma resposta para Takashi Matsuoka: Bando de Pardais

  1. turnes disse:

    Sim, a maquiagem é do tipo engraçada. Meio Planeta dos Macacos, o antigo. Aliás esse Mr. Hyde é engraçado, eu gostei.

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