A Pretensa Filosofia da Bola

tirinha12741

Era domingo, e eu voltava do Morro das Pedras. Voltar do Sul da Ilha num domingo à tarde só é viável nos meses de Abril a Setembro, ainda mais depois do advento do Riozinho e dos condomínios de alta classe no Campeche. Alta classe? Fala sério, é especulação e mais uma zona de restinga devorada pela faina da especulação.

Mas eu voltava da casa da praia no domingo. Parei na fila da saída do jogo do Avaí. Decisão, percebi. Devem ter ganho, dada a quantidade de gente embasbacada pelo caminho. Mulheres, crianças, velhos, jovens, gordos, magros, feios, mais feios, pobres, ricos, todos com aquele uniforme horroroso, balançando bandeiras e gritando em uma língua derivada do manezês típico da Costeira do Pirajubaé.

Na Expressa Sul, que alcancei logo depois de passar pela turba descontrolada, um Fiesta andava logo à minha frente. Dois marmanjos pendurados para fora, sentados nas janelas traseiras do Fiesta, cada um com sua bandeira. Tentei ultrapassa-los, mas o trânsito estava denso. Eles olharam para mim, buscando confraternizar comigo, transmitindo sua rudimentar e abundante alegria. Lancei o olhar mais inexpressivo que consegui, o que não era muito difícil naquela situação. Fiquei com uma pontinha de arrependimento por estragar a felicidade alheia, mas não pude evitar.

Quando finalmente ultrapassei o Fiesta, minhas reflexões interiores me levaram à conclusão de que eu seria uma bosta de um sociólogo, caso seguisse esta carreira. E podia ser pior: eu poderia ser cronista cultural de jornal ou filósofo popular, desses que rima Deleuze com xôpis. Pesando as opções, seria improvável, ainda mais pela indumentária: minha cara não combina com óculos de aro quadrado ou camisa aberta até o meio do peito, e eu não me acertei com o uísque até hoje.

Caso as circunstâncias da moda e dos hábitos não fossem o suficiente, eu largaria do emprego assim que me pedissem para escrever algo sobre os aspectos filosóficos do futebol. Provavelmente seria alguma palhaçada envolvendo a percepção artística entremeada nos lances de algum brucutu abobalhado do calibre do Ronalducho, ou ainda uma redação encharcada de nostalgia sobre os lances de algum craque obscuro da copa de 1958, para a qual eu teria de fingir que não nasci em 1974.

Eu sempre duvido da possibilidade de vir a me surpreender com a imbecilidade quando se trata de futebol ou outras manifestações populares, mas sou ingênuo. Dias desses vi um carro diante de um boteco aqui perto do trampo, e a viatura envergava, com certo orgulho, um adesivo onde constavam dizeres do calibre de: Tenho os quatro melhores do Brasil: Nosso presidente Lula, nosso governador LHS, nosso prefeito Dario, e o meu querido Avaí. Isto me leva a concluir que deveriam incluir um exame, bem básico, de sanidade mental antes de entregar a habilitação de direção para qualquer cidadão.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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8 respostas para A Pretensa Filosofia da Bola

  1. Suzana Luz disse:

    kkkkkkkkkkkkk. Excelente. Que rabugento. uáuáuá. Concordo plenamente. essa parte, então, deles quererem confraternizar com qualquer um q passa é demais, né? qdo me acontece isso, tbem faço o mesmo. Bando de babacas. infelizmente, é essa a realidade atual: ignorância do caralho, babaquice total, superficialidade pra não pensar, não sofrer, não discutir, não se mexer, não se manifestar, só qdo a maioria tá na mesma e que as autoridades não reprimem e a mídia tá a favor.

  2. Pingback: Sem Olhos Em Casa « sinestesia

  3. Jonas Lopes disse:

    Era eu no ARS, sim. Como fazia mais de um ano que eu não voltava para a terrinha, fui lá tomar um caldo de cana esperto.

  4. Jonas Lopes disse:

    E eu, bem idiota, estava em Fpolis naquele fim de semana e resolvi passar o domingo no Ribeirão da Ilha. Havia me esquecido totalmente do Avaí…

  5. Turnes disse:

    odeio futebol.

    e sobre a balela que me perguntaste…o nome disso é esquizofrenia e hoje em dia pode ser tratada de forma química.

  6. Lucian disse:

    Futebol arte efêmera. São (poucas) pérolas aos porcos, apesar de eu simpatizar com o Avaí.

    Vai me dizer que teu coração não palpitou nem um pouquinho com aquele chute no meio da rua do Cleiton Xavier aos 42 do segundo tempo lá no Chile?

  7. marcelo de almeida disse:

    Tiro certeiro, ja fui gandula,sempre tive vontade de furar a bola com um canivete.Pena que nunca tive um canivete suisso..Agora tu esqueceu da cerveja na mao dos caras do Fiesta ! Agora poderiam ter caido da janela tambem …kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk….

  8. mafra disse:

    A-DO-REI. sem mais.

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