Ray Bradbury: As Crônicas Marcianas

Existe algo de aprendizado mútuo na construção de As Crônicas Marcianas, romance de Ray Bradbury, lançado em 1951, e que define um divisor de águas na ficção científica. O ajuste da percepção é algo natural para o leitor, que se debruça sobre a obra de um novo autor, e encontra-se diante de um estranho. Há de se harmonizar, de buscar veios de delícias perceptivas entre material aparentemente apenas de enchimento, algumas vezes desagradável nas obras de construção menos burilada. E, porque não haveria de ser, em certos casos é necessário seduzir a obra, e não esperar que ela o seduza.

Em alguns romances, o leitor enxerga apenas o seu próprio processo de envolvimento com a obra. Escritores competentes esconderão o fato de que também tiveram de se acostumar com sua própria ficção. O texto não nasce ciente de sua essência, e pode levar algum tempo para que a espinha dorsal da obra se estabeleça. No meu caso, por exemplo, não é raro que descarte as partes iniciais de algum texto, que já cumpriu sua missão de rabisco em um rascunho.

Ray Bradbury dá a impressão, neste livro, de seguir o mesmo caminho. Suas primeiras páginas parecem se debater em preocupações, soam por demais interessadas em atender a expectativas. Os ambientes de Marte, os panos de fundos para as crônicas a que alude o título, são por demais dadas a exotismos. Em lugar da obsessão por coerência e verossimilhança de um Arthur C. Clarke, é a torrente de esquisitices que move as primeiras páginas deste volume. Existe um desejo de negar a Terra enquanto superfície, e seus objetos enquanto suporte da vida humana, da vida dos terráqueos, para usar o jargão da FC.

Este enfoque logo se esvai, antes mesmo de termos vinte páginas lidas. Bradbury engrena no texto, finalmente engajado no que parecia, antes de tudo, ser seu objetivo, ou seja, a percepção de que o ambiente e o planeta podem mudar, mas que o ser humano continua com seus mesmos dilemas, seus mesmos costumes e seus mesmos problemas.

Marte é pintado como um planeta onde a vida humana é possível, apesar de certas condições obscuras, que podem assustar um colono menos audaz. A condição extrema proporcionada pelo ambiente da colonização, e o fato desta ocorrer em uma fronteira onde a física pode ser moldada quase livremente pelo escritor, permitem que Bradbury se entregue a interessantes exercícios de escrita.

Nas primeiras partes, os humanos ainda estão em suas primeiras abordagens, e seus fracassos são ora tenebrosos, ora hilários. Aos poucos, o planeta vai sendo invadido, e as diversas ondas que o atingem são de matéria diversa, e produzem pretextos para narrativas instigantes. Com habilidade, Bradbury excursiona por diversos estilos: instila comédia em romances inevitáveis e paradoxalmente indesejáveis, causa arrepios pelas aparições telepáticas e doppelgängers alienígenas, fala das atualidades da guerra fria em 1951, emula a literatura dos costumes sulistas, envolvendo tudo em uma percepção deliciosamente datada do que seria o futuro quando visto do pós-guerra.

Bradbury atua em duas camadas: primeiro, provoca reflexões dentro de bolhas de entretenimento. Suas narrativas criam inversões de significado, assim como reviravoltas que prendem o leitor. Segundo, usa assuntos específicos como mote, mas sem dar ao escrito um tom panfletário. O miolo de certos argumentos narrativos pode ser racismo, teologia, solidão, loucura, deslocamento social, ambientalismo, patrimônio histórico e cultural, infelicidade familiar, e este cerne estará visível, podendo causar algum desconforto ao leitor que se prender à literalidade ao ler. Nada que não seja dissolvido por algumas gotas de imaginação.

Por vezes Bradbury prolonga-se em circunlóquios, o que nos remete ao início do texto: Crônicas Marcianas parece merecer uma revisão, uma leitura geral do autor, e uma posterior reconstrução de algumas partes, com o intuito de homogeinizar o texto. São desvios desta ordem certas gorduras do texto, assim como as descrições burlescas do começo.

Meus comentários, entretanto, são tecidos de forma a expressar uma percepção pessoal, e não devem ser confundidos com uma crítica ao livro. Quando decola, a prosa de Bradbury é simples e eficiente, prestando-se bem à expressão da sua mente extremamente criativa. A fantasia de um planeta a ser conquistado, com suas civilizações antigas já mortas, e seus remanescentes esquisitos, seduziu-me rapidamente.

A sua imaginação tece tramas que nos levam com facilidade, infundindo-nos sensações diversas. Os pontos intensos se intercalam com chamadas menores assim como os textos longos se intercalam com curtas vinhetas. A linha geral, todavia, segue um rumo coerente e planejado, uma epopéia sem os versos chatos para serem cantados por gente de roupa esquisita e pomposa. Bradbury é econômico, e nos leva a passear por suas paisagens.

Ainda que não mostre esperança para o ser humano, dado que este não consegue aproveitar sua chance de, enfim, ser diferente, Bradbury fornece laboratórios a nossos olhos famintos. Suas palavras nos arrancam do chão, e nos fazem mirar o espelho no canal distante de um Marte que nos escapou antes de ter sido qualquer coisa além das areias vermelhas na tela de um minúsculo trator de exploração da NASA.

Um trecho, contendo as elucubrações do Capitão Wilder, da quarta expedição, enquanto caça Spender, um de seus oficiais:

(…) Avançaram por uma via ladrilhada. Agora todos sussurravam, pois era como entrar numa vasta biblioteca ao ar livre, ou num mausoléu onde o vento morasse e as estrelas brilhassem. O capitão falou em voz baixa. Fez suposições sobre o desaparecimento dos habitantes, como teriam sido, quem teriam sido seus reis e como tinham morrido. E sempre sem levantar a voz, especulou sobre como haviam construído aquela cidade para resistir ao tempo e se alguma vez teriam ido à Terra. Seriam eles os ancestrais dos terrestres, aparecidos havia dez mil anos? Teriam amado e odiado de maneira semelhante e cometido as mesmas bobagens que os terrestres? (…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Ray Bradbury: As Crônicas Marcianas

  1. thays disse:

    eu leio esse livro e ele é mara…

  2. turnes disse:

    muda meu endereço, ali do ladinho ————->

  3. turnes disse:

    mudei o endereço lá do blog, agora é http://www.blogdoturnes.blogspot.com

    sigam-me os bons!

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