Capitalismo pt III: Cacarecos Tecnológicos

Dos males que a sociedade sofre, um dos mais entranhados é a confusão dos parâmetros. Encharcadas pela publicidade abundante, as pessoas esquecem do salutar exercício de pensar quando adquirem objetos e serviços. Ontem mesmo tive um exemplo muito claro: ao elogiar a câmera de um celular, um colega, engenheiro competente, salientou que o equipamento em questão tinha, digamos, oito megapixels de resolução, tratando isto como um sintoma de funcionalidade redentora. Caspita.

É sabido por fotógrafos, mesmo os amadores, que um sensor digital de alta resolução é útil apenas quando se deseja uma imagem digital para impressão em grandes dimensões. Para mostrar em uma tela de computador ou para imprimir no formato tradicional 10×15, imagens de três megapixels são o suficiente. Definições maiores servem para atulhar seu disco de estado sólido e também o disco rígido do computador onde você descarrega as imagens.

Entretanto, tornar obsoletos ou de capacidade insuficiente os dispositivos atuais é um dos cavalos de batalha do capitalismo desde seus primórdios, logo na ressaca da revolução industrial. A fórmula, observem, é simples: defino um padrão de megapixels mais elevado, forço o consumidor a comprá-lo por alguma razão mesquinha, como inveja da câmera melhor do vizinho ou simples ignorância mesmo, e, de quebra, levo-o a comprar maiores volumes de armazenamento magnético e de estado sólido, o que, por sua vez, arrasta-o às lojas para comprar computadores com maior capacidade de processamento.

Processo semelhante ocorre nas telas em movimento. Os consumidores atuais de filmes não ligam para qualidade da dramaturgia, da fotografia ou da direção do que assistem, mas travam batalhas monstruosas para estarem sempre na vanguarda da tecnologia de exibição. Manadas de gnus ignaros foram às lojas para adquirir televisores de plasma, uma tecnologia natimorta, para depois abrirem suas carteiras nas liqüidações de televisores LCD, e agora, meu deus, o que faremos, há televisores de LCD com alta definição.

Na mesma nota lamentável ocorre o pizzicato néscio da televisão digital, onde as pessoas comuns e mesmo as estudadas chafurdam, balbuciando bobagens inomináveis ao misturar os conceitos “digital”, “analógico”, “alta definição”. Mal sabem eles que ainda se discute tudo, e que estes conceitos ainda estão sendo desenvolvidos. Acreditam que existe uma bíblia, um testamento específico em que algum profeta visionário definiu todos esses conceitos, e os legou para a humanidade, agora agradecida por tamanha antevisão.

A plebe de todas as classes adquire seus reprodutores de raios azuis, crente de que os filmes detestáveis da pior fase de Hollywood serão bons se estiverem em alta definição. Sentem aquele prazer imenso pelo pagamento de bagatelas muito acima das de um DVD normal, e papagaiam argumentos furados de vendedores de balcão que nem mesmo lêem o manual do que vendem, mas apenas papagaiam os argumentos furados do representante do fabricante.

Na ânsia do consumo, quem perde é a arte. É a fotografia que se banaliza, afogada em um universo onde a captura é um processo trivial. Há quem pense que a disponibilidade de recurso fácil e barato possa fazer a arte florescer como nunca, e pode notar que está errado simplesmente por olhar ao redor. A arte não é fácil. Talvez não seja fácil nem mesmo para o artista. Exceções? Há, por certo, mas não tantas que configurem uma regra.

Só existe retorno de investimento se o cinema atinge as massas, então serão os filmes medíocres a receber investimento e impulso. Os filmes alternativos, os filmes difíceis, os filmes densos não serão impressos em discos de raios azuis, não tão cedo. Se quero alta definição, é improvável que eu tenha mais do que alta definição. Terei filmes grosseiros, feitos para adolescentes que se interessam apenas por efeitos especiais duvidosos e tramas rasas.

Daqui da percepção periférica, a sociedade atual é um pires. Em alta definição.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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11 respostas para Capitalismo pt III: Cacarecos Tecnológicos

  1. Ana Corina disse:

    “Daqui da percepção periférica, a sociedade atual é um pires. Em alta definição.”

    Adogo!! 😉

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  6. turnes disse:

    concordo com o comentário acima.

  7. gilvas disse:

    deviam inventar um verbo mais adequado a este registro banal de imagens. fotografia é algo mais.

  8. Christian disse:

    O que mais me surpreende é a esquizofrenia que rege isso tudo. Não existe o menor sinal de que consumidores percebam a relação entre o padrão de consumo ao qual se entregaram e todos os outros problemas que os rodeiam.

    Exemplo óbvio é o dos carros. Outro exemplo — talvez menos óbvio mas bem mais cruel — é o da alimentação.

    E assim seguimos, chafurdando e fotografando…

  9. marcelo de almeida disse:

    Tu ja viu um carnê de 36 prestaçoes de R$ 78,00 ….. Coisa de louco !! Agora lembrando as casas Bahia, esta vendendo online ok… Nao perca essas ofertas ” Camera de 8 mega espace só 12 vezes de ??????? Abraços!!!

  10. Lia Drumond disse:

    Podes crer que é por aí mesmo. A preocupação é ter, não ser. Mas quem é, tem naturalmente. Quem não é, precisa comprar, pra parecer…

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