Juan Carlos Onetti: A Vida Breve

A Vida Breve é uma leitura tremendamente apropriada à época de desaceleração que é o outono. A questão que centraliza minhas divagações em torno deste livro é a estranha relação entre uma prosa rica e o tema desolado sobre o qual se assenta.

Juan Carlos Onetti trata de assuntos escabrosos: seu protagonista vive a depressiva etapa que se seguiu à retirada de um dos seios de sua esposa. Ele enfrenta seus dilemas pessoais acerca do ocorrido ao mesmo tempo em que precisa sustentar o moral dela. O melhor amigo do protagonista carrega junto a si uma antiga amante, que ele sustenta psicologicamente por conta de um romance no passado.

Parece claro que Onetti extrai os fatos de seu cotidiano. Seus personagens urbanos encaixam demais com a realidade de seu país no tempo em que este livro foi escrito para que esta seja uma escolha estética altamente deliberada. Os títeres que Onetti comanda em seu sólido romance são criaturas que ele moldou a partir de formas de sua cidade província.

Dito isto, dedico-me ao paradoxo: como pode fluir uma prosa tão bem urdida de personagens tão machucados, já cinzentos das pancadas? Mesmo quando o protagonista escapa para seu metalingüístico rascunho de livro, este mundo é de personagens entediados e perdidos, ainda que mais acessíveis, mais desejáveis em suas limitações.

E se Onetti morasse nas Maldivas, cercado de beldades e de um Sol luxuriante, com palmeiras e ukeleles? Estaria vazio da inspiração que o infla, e o lança nas imensidões de suas frases belíssimas? Minha única saída para este dilema se encontra em terreno vizinho ao da literatura.

Mais de uma banda conhecida se formou pela condensação do tédio que domina as pequenas cidades do interior da Inglaterra. O cotidiano vazio engendrou idéias geniais na cabeça de tantos adolescentes sem saída, e continua a fazê-lo. No Brasil, o caso mais clássico seria Brasília, uma cidade forçada a existir, um rebento faraônico em pedaços desconexos, cheio de adolescentes bem nascidos que não tinha nada a fazer além de criar bandas e canções.

Outro ponto interessante está na observação do processo de criação do escritor. Díaz Grey, o alter-ego do protagonista, é um médico de província que vive em seus exercícios de distanciamento da realidade. Estes têm propósito duplo: proporcionam matéria bruta para o romance que o protagonista gesta em sua cabeça, e o afastam dos pensamentos desolados da sua vida real. Uma das formas de escrever, professa Onetti, é se lançar em uma vida paralela, uma bolha imaginária de personagens e eventos que espelham psicodelicamente a existência real.

Vale um elogio à editora Planeta, que nos brindou com uma bonita edição. O azul da capa estampa discretamente título e autor, e dá o espaço quase todo à reprodução de uma obra de Leon Ferrari, que é coerente com o livro, além de causar uma estranheza atrativa em quase todos que viram meu exemplar.

A Vida Breve, enfim, faz o que um bom livro deve fazer: fornece indagações e diversão em doses equilibradas, e o faz ancorado em um universo de desconforto constante. Um achado.

Um excerpto da página 63 da edição brasileira, último parágrafo:

(…) A grande cama, igual à minha, colocada como um prolongamento da cama em que Gertrudis dormia, parecia preparada para a noite; mas sobre a colcha amarela, quase dourada, misturavam-se revistas de moda, roupas recém-passadas, uma maleta de mão, aberta e vazia. Comecei a me mover sobre o chão encerado, quieto e sossegado, sentindo o contato com uma alegria a cada passo lento. Acalmando-me e excitando-me toda vez que meus pés tocavam o chão, pensando avançar no clima de uma vida breve na qual o tempo não podia bastar para comprometer-me, fazer-me arrepender ou envelhecer. (…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Juan Carlos Onetti: A Vida Breve

  1. Jonas Lopes disse:

    O que mais me fascina no Onetti – e nesse romance, em especial – é a habilidade em manejar o batido gênero realista ao estabelecer as existências paralelas de seus personagens. Vale demais ler também aquela coletânea “47 Contos”.

  2. gilvas disse:

    continua havendo gente isolada neste mundo, ainda mais com internet. um de meus pensamentos recorrentes é o de que os meios facilitados apenas dificultaram a comunicação em lugar de potencializá-la. a inspiração, supeito fortemente, ainda brota mais poderosa na isolação

    onetti estava na minha pilha há dois anos. entrou na fila da leitura por acaso e pela capa belíssima também, confesso.

    cresci numa época em que os últimos ecos de elogio ao jk morriam. não sei o que dizer dele, não consigo me posicionar. mas acho que gostaria de ter algo a dizer sobre ele.

  3. Humberto disse:

    Brasilia, uma cidade forçada a existir. kkkk. Amei isso, Gilvas. Genial.

    Como diz um amigo meu, deveria ter obrigado, amarrado o JK em Brasília, forçado ele a viver lá até o fim da vida.

    Porque o bonito, quando acabou o mandato, voltou belíssimo para o Rio.

  4. mafra disse:

    tenho esse livro a mais de um ano, mas ainda não o li. acho que chegou a hora, né?!?

    agora, essa teoria sobre bandas e tédio em cidades cinzentas não acho apropriado não. pense comigo, hoje em dia, com internet e novidades diárias, será que ainda existem boas bandas/músicos/compositores fazendo coisas interessantes??? hum…

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