Tédio

Os anos oitenta corriam soltos na euforia das Diretas Já, e uma banda de nome bizarro entoava os versos “o que corrói é o tédio, não tenho um programa”, ou algo parecido; se eu for me preocupar com precisão ao citar a composição de uma banda chamada Biquíni Cavadão, terei de repensar quase todas as prioridades da minha vida.

A citação, no entanto, não precede nenhum discurso sobre esta hoje austera banda, tão dada à defesa de um suposto rock nacional diante das ameaças do que chamam, nominalmente, de “bundamusic“, ou mesmo da invasão de hordas preguiçosas de pagodinho paulista ou sertanejo universitário. O caso é simples: o rock brasileiro sofre pela incapacidade de se renovar, e de gerar novos compositores e novas bandas interessantes. A perda de espaço para a concorrência, ou, modernistamente falando, “cocôrrencia“, é sintoma de incompetência de nossos roqueiros. Divirjo, ora: o assunto é o tédio.

Eu não entendo o tédio, ou melhor, não entendo as pessoas que se dizem infectadas por ele, e ainda menos aquelas que o cultuam. Buscar a definição de tédio deve estar ao alcance de qualquer leitor aqui, então não trarei aqueles endereços de wikipedia aqui: do it yourself.

O tédio não existe. Ao menos não para as pessoas que cultivaram seus gostos nas infinitas camadas em que isto é possível. O tédio não se desenvolve em mentes ávidas por livros, por exemplo. Sempre existirão páginas a serem desbravadas, ou mesmo redescobertas. Quem dera eu ter tempo para reler alguns dos exemplares que me apaixonaram.

O tédio existe? Talvez. Reuniões inúteis, encontros sociais com pessoas chatas, isto existe, e é uma forma de tédio. Quantas vezes não preferi desviar, furtivamente, os olhos para qualquer coisa escrita, qualquer superfície colorida, qualquer vislumbre de arquitetura pensada, qualquer mecanismo minimamente curioso, qualquer coisa que me roubasse, por instantes, da maçada de algum pedante esvaziado? Por vezes, a passagem para a liberdade está em puxar da memória as elegantes passagens das suítes de violoncelo de Bach, executado por Yo-Yo Ma, que encanta meus ouvidos agora. Se me permite o silêncio, é para lá que me evado ao me ver cingido pelo falatório circular de certos grupos.

Temo o dia em que não poderei mais ler, e desejo intensamente que meus olhos estejam capacitados a decifrar as páginas da boa literatura até o crepúsculo da minha existência. Caso não ocorra, ó tragédia, sempre haverá o braço de um violão a ser desvendado. Nem falo de um piano porque não enxergo em mim a competência de encará-lo, ao menos daqui de onde me vejo. Mas quantas horas poderiam ser designadas para dialogar com as cordas e suas imensas possibilidades? Milhares, e ainda haveria o que aprender.

Pobres os entediados, porque não sabem sorver a beleza que nos é oferecida por este mundo, e muito menos agradecer a este mesmo mundo pelo caminho de criar novas belezas.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Tédio

  1. Sendo tédio não a falta do que fazer, mas a falta de ânimo em fazê-lo, confesso que já sofri disso algumas vezes. Tudo perde a cor. O que fazer então? Fechar os olhos, deitar com as pernas pra fora da cama (de preferência balançando elas), e esperar passar…

  2. gilvas disse:

    parafraseando minha avó: “bota uma enxada na mão desse piá, e ele pára de sofrer”. colonada pragmática!

  3. Turnes disse:

    Hamlet, o príncipe atormentado da Dinamarca sofria de tédio e já vociferava: “Oh Tédio! Oh Nojo! Isso aqui é um jardim abandonado!Cheio de ervas daninhas, invadido pelo veneno e o espinho!”. Então o sintoma é antigo. Não há tédio depois da invenção do Prozac, isso sim. Também não há mais poesia.

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