Graham Greene: O Fator Humano

Existe uma frase sobre o samba, e ela expressa o louvor a este estilo musical dizendo que as pessoas que não o apreciam padecem de problemas mentais ou não estão com suas extremidades inferiores em bom estado. Julgamento equivalente se aplica perfeitamente aos livros de Graham Greene.
Neste livro, O Fator Humano, dito de sua fase madura, Greene trafega pela estreita faixa que divide os trabalhos de Milan Kundera e Sidney Sheldon. A banalidade dos divertidos diálogos se assenta sobre a firme estrutura do roteiro de espionagem. O gênero é arrancado das alturas exóticas que enfeitam um filme de 007, e alocadas no espaço bucólico das familiares cercanias de uma Londres setentista.

A humanidade de seus personagens deixa Greene alguns palmos à frente da concorrência. Um médico conspirador não enxerga contraste ético no tratamento de pessoas ou de trutas. Um espião às portas da aposentadoria se agarra a seu estranho universo conquistado com unhas e dentes. Um desconfiado coronel, que perdeu esposa e filha para um mundo que não o absorve, se faz de fiel de uma balança subjetiva. Um jovem jogador bêbado se apaixona pela secretária, e é tomado por traidor. Impressiona a forma como Greene trabalha as motivações de seus personagens, raramente deixando que resvalem para posições maniqueístas no tabuleiro. Sua elegante escrita nos impede de nomear mocinhos e bandidos.

Nas entrelinhas do roteiro, doses fartas de criativo humor e quantias semelhantes de questionamentos existenciais e religiosos. Greene cria diálogos ágeis, perfeitamente integrados a sua intenção narrativa. Pergunto-me se é um dom natural, ou se ele burila seus textos com persistência e extremado cuidado. A questão religiosa vem à tona como nuances em um país naturalmente cingido em facções de protestantes e católicos. Greene não se arrisca a tocar na teologia, e apenas se diverte com costumes e diferenças aparentes. O escritor, enfim, foi educado pelo mesmo sistema que nos deu o Monty Python.

O pano de fundo é a guerra fria, num momento em que os procedimentos desta já estavam se tornando escandalosamentes burlescos. Instituições cuja necessidade era duvidosa, as agências de espionagem lutavam contra o avanço de um mamute comunista que já nem era tão mamute assim, e que desabaria por conta de seus próprios conflitos internos. A parte que nos cabe, entretanto, era menos lúdica, conforme nos informam os registros disponíveis sobre as ditaduras latino-americanas patrocinadas pelos Estados Unidos, e também as ditaduras financiadas pelo outro lado.

Ler Greene, hoje em dia, perdeu parte do frescor da crítica. O prazer da leitura, entretanto, continua.

Trecho da página 189 da edição de bolso brasileira, da L&PM Pocket:
(…) O serviço de fúnebre pareceu ao dr. Percival, que há muitos anos não comparecia a um funeral, repleto de informações irrelevantes. O vigário começara pela leitura de Coríntios: “Toda a carne não é a mesma carne: mas há uma espécie de carne de homens, outra carne de animais, outra de peixes e outra de aves”. O que era inegavelmente verdadeiro, pensou o Dr. Percival. O caixão não continha um peixe; se tal acontecesse, ele estaria muito mais interessado… quem sabe uma enorme truta? Ele olhou rapidamente ao redor. Havia uma lágrima aprisionada por trás das pestanas da moça. O coronel Daintry exibia uma expressão furiosa ou talvez sombria, que não pressagiava boa coisa. Watson estava também obviamente preocupado com alguma coisa… provavelmente pensava em quem iria promover para o lugar de Davis. (…)

Mais Greene por aqui? Ora, tome isto e isto! Se sobrar fôlego, vale a pena dar uma olhada em outro dos prediletos da casa.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Graham Greene: O Fator Humano

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  3. Humberto disse:

    afeeeeeeeeeee, gilvas, to desmaiado na chón com aquilo que vc escreveu no meu blog!!!

  4. turnes disse:

    Eu avisei..tu não lês os emails que eu te mando né? Hmmpf

  5. Humberto disse:

    o our man achei super cinematográfico. tem uma reflexão dele no livro que nunca esqueço, que tipo “uma cidade é apenas meia dúzia de ruas” para cada pessoa.

    😀

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