Unhappy Birthday

Completei trinta e cinco anos neste mês. Apesar de não ser uma idade adequada ao completo desenvolvimento da rabujice, os sintomas já são notáveis. Na verdade, eles já eram bastante salientes durante a fase final da adolescência, e aniversários eram datas complicadas de tratar.

Inicialmente porque não vejo porque o dia de nascimento de uma pessoa deva ser especial para ela. Deve ser especial para seus pais, e seus parentes próximos. Estes é que preparam tudo, que vivenciam cada instante. Os pais estão presentes na concepção, e se juntam aos amigos e parentes ao comunicarem as novas e tudo mais que rodeia o evento por vir. O filho chega depois de tudo, assustado e berrando, ocupado demais, tentando entender o que acontece, para se inteirar e se harmonizar com o sentimento de que é foco.

Outras datas é que são importantes para a pessoa: o primeiro dia de aula, o primeiro xixi na cama, o primeiro beijo, a primeira cerveja, o primeiro emprego, e segue uma lista imensa de primeiros, engrossada por outros momentos classificáveis como “melhores”, por exemplo. Sou excelente em lembrar de datas relativas ao relacionamento que vivo, só para citar uma modalidade.

Esta estranheza com a comemoração do aniversário não é algo pensado, mas exatamente o contrário. Trata-se de um sentimento intrínseco a qual tento dar pinceladas de racionalidade. Sinto-me melhor se consigo explicar, para mim mesmo ao menos, porque considero tão absurda esta comemoração.

Amplifica a sensação de estranhamento a euforia que cerca estas ocasiões. Sou naturalmente avesso à euforia, e tive esta crença reforçada por centenas de momentos vazios logo após conquistas. Vitórias tornam-se ainda mais absurdas se enxergadas pela lente de um dia após uma explosão de euforia.

Minha condição de ogro é algo a ser reparado, penso, então procuro ser civilizado com as pessoas que me parabenizam no meu aniversário. Talvez seja instinto de sobrevivência; quero manter ao menos algumas pessoas perto de mim, caso eu venha a ter um velório. Imagine que saco um velório com pouca gente com quem conversar?

Entretanto, sinto que minhas frases são uma porcaria. Falsas mesmo. Sem espontaneidade. Parecem fala de ator adolescente em filme brasileiro. Ainda bem que é apenas um dia por ano, e não devem restar mais do que cinqüenta pela frente.

***

“Unhappy Birthday” é uma canção do último disco dos Smiths, caso tu não saibas. Passados vinte anos, ainda é o Morrissey quem sabe melhor descrever uma canção de aniversário. Mesmo que seja para um desafeto.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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11 respostas para Unhappy Birthday

  1. Ana Corina disse:

    ô, será que existe um meio da gente conseguir garantir que NÃO terá velório nem qq coisa parecida? se é para terem certeza de que morri mesmo, que me deixem numa cama de hospital as tais 24h, pelada com um lençol por cima e depois me queimem e joguem fora, de preferência num pedaço de floresta ou coisa que o valha, ou do alto de um morro, desses que o povo adora saltar pra brincar de voar… se alguém souber, favor avisar. minha futura pessoa defunta agradece.

    • gilvas disse:

      o que pode ser feito deixar recomendaes claras do que deve ser feito com o seu cadver, mas acredito que a famlia tenha meios de interferir, e a a gente sabe que, em geral, a coisa descamba para o carnaval. agh.

  2. turnes disse:

    escutou Is Not Your Birthday Anymore? do disco novo, um choque.

  3. Nira. disse:

    Então, canceriano, não sei se vc viu no FAM “Se eu morresse amanhã”, do Ricardo Weschenfelder, com o Turnes como o protagonista que tem o estranho hábito de comparecer a enterros de desconhecidos…

    enfim, acho que os aniversário são comemorados porque as pessoas precisam ser parabenizadas por sobreviver mais um ano neste mundo cruel…

    sob esta ótica, parabéns, vc já sobreviveu 35…

  4. marcelo de almeida disse:

    Essa maricota e muito engraçada!!!! Tu deve andar de roda com essa garota !!Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…..

  5. marcelo de almeida disse:

    Tu e maluco!! Ta querendo ficar por aqui mais uns 50 anos ?? Falando em 50 anos receberei minhas gravaçoes quando mesmo ?? AH!! Ok no proximo aniversario …

  6. gilvas disse:

    feliz? sim, foi um dia muito feliz: dormi até tarde, fiz faxina na casa, treinei aikidô, e comi bolo-surpresa na festinha que minha namorada arquitetou com alguns amigos.

    mas o sentimento de inadequação continua, forte como sempre, e talvez um pouco mais. tão desagradável quanto, reforço, as falas dos moleques em meu tio matou um cara, por exemplo.

    fechando a parada: também tenho este mesmo sentimento de desconforto quando vou parabenizar novos pais, e sempre me sinto um ogro malvado.

  7. Humberto disse:

    “Parecem fala de ator adolescente em filme brasileiro” ahahahah, ri tanto com isso, gilvas. Eu sempre me pergunto: pq nao tem ator mirim brasileiro bom, pelo amor de qualquer coisa? na europa tem. Aqui nao tem.

    Níver também acho uma chatura. eu esqueço o meu. mas aí no dia minha mae me lembra.

    me identifiquei com o “avesso a euforia”. Mas, gilvas, fico um pouco envergonhado com isso. tipo, me sinto tao embaraçado em réveillon, por exemplo. Não consigo gritar “viva”, é esquisito…

    E vou ouvir o unhappy agora. vc deu a idéia. 😀

  8. 35… ainda chego lá.. e ainda este ano. E com direito a começar a fazer aqueles exames médicos que são demarcados pela idade, ou seja, começarei a entrar em decadência.
    Mas, sinceramente, para mim tem algo pior: ter de dar os parabéns aos parturientes por um rebento recém-chegado, quando no fundo eu gostaria de dizer “meus pêsames, mais um casal infeliz no mundo”… Isso é ou não é ser ogra?

  9. maricota disse:

    É incrível a quantidade de pessoas que, não tendo mais com o que se preocupar, perdem tempo procurando cabelo em ovo. Deixa de ser nada-a-ver! Não tem que filosofar muito a respeito quando alguém chega e nos parabeniza pelo aniversário. Apenas agradecemos e tomamos mais um gole de cerveja… Tá louco. Cada um…

  10. Christian disse:

    Embora seja tão avesso ao próprio aniversário quanto eu, espero que tenha sido uma data feliz. Se teve alguma doçura e amigos por perto, certamente foi.

    Parabéns pelo seu dia, Gilvas.

    Abraço!

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