A Ironia do Mito

Meados dos anos oitenta, e eu era um garoto muito feliz: tinha acabado de pegar minha fita Basf, de rótulo marrom sobre plástico preto, quarenta e seis minutos, e um conteúdo muito especial, que viria a ser o disco mais vendido de todos os tempos. Off The Wall é o marco máximo de uma era de gravadoras gordas e artistas produzidos ao extremo.

Eu ainda não era afeito ao padrão de álbum; ainda me ocupava de canções individuais, e tinha sido atraído para este disco por conta de Beat It, que se instalava num ponto intermediário entre o pop sintético e o metal lamê, duas tendências fortes naquela época de gel no cabelo e amarelo-limão. Nesta época eu tinha apenas coletâneas, e geralmente em fita cassete, copiada, pois discos eram caros em Little Boats City.

Michael Jackson era o cara, embora eu não soubesse exatamente a razão. Ainda não tinha ferramental para entender que sua voz era excelente, suas composições interessantes, e que havia pessoas nos bastidores produzindo transformando aquela música em um produto extremamente palatável, mesmo para um jeca como eu.

Quando saiu Bad, eu já estava em outro lugar. Vi o clipe, super-produzido e dirigido por Scorcese. Passava no Clip Clip, com estréia no Fantástico. MJ era um fenômeno, abrangente demais para que eu, adolescente, o considerasse um item imprescindível de minha existência. Por outro lado, certas partes do cenário estavam rasgadas quando os seus irmãos tentavam embarcar no trenzinho do sucesso do caçula. Janet Jackson enganava bem, mas seus outros irmãos chafurdaram na fiasqueira com a ressurreição do Jackson Five, e Latoya Jackson já se garante lamentável pelo nome.

Na fronteira de oitenta e noventa, ele lança Black or White. Computação gráfica no Fantástico, as primeiras utilizações massivas de morphing no vídeo, papagaiada sobre as inovações e uma música requentada. MJ já tinha desenvolvido uma parte do seu currículo de excentricidades bizarras, e, porque não, chatas. Seu personagem já era maior do que sua música. Estava morto para o mundo como eu o percebia.

Depois disso, sua vida continuou descendo barranco abaixo. Lama, lama, lama, tanta que nem vale a pena dar exemplos. Sua vida era tão ridícula quanto a da Xuxa, e ela, ao menos, tinha um esqueleto de seios excelentes no armário com a etiqueta Amor, Estranho Amor.

Foram quinze anos? Bom, acompanho o RSS da Rolling Stone Brasil, peneirando as notícias relevantes entre futilidades como desfiles e irrelevâncias como Justin Timberlake, e foi inevitável ler sobre a luva que MJ usaria em sua nova turnê. Cheia de cristais caríssimos, pelo que eu lembro. Tive paciência de ler esta notícia por conta de outra, lida na semana anterior, que trazia dados sobre um novo disco e uma nova turnê. Ora, tudo bobagem: o que valia era mostrar-se. O músico havia morrido antes do final dos anos oitenta.

Talvez o seriado animação Robot Chicken tivesse uma boa teoria mesmo. Em um dos episódios, o Michael Jackson verdadeiro voltava para enfrentar o sósia maléfico que havia tomado seu lugar na Terra. Por mais bizarro e divertido que fosse, poderia ser verdade. Seria bom se fosse verdade. Aquela pessoa, que pilotava a vida de MJ a partir da época de Black or White, era uma criatura triste, sem gosto pela própria vida. Ela não fazia justiça à lenda que evocou, e a toda a tradição de música negra que vinha coroar.

Madonna foi muito mais feliz. Antes empresária do que artista, Lady Ciccone soube manejar público e vida pessoal de forma exemplar, escapando com a galhardia de uma agente secreto de filme de todas as ameaças. MJ sucumbiu. Como Elvis, com quem decerto compartilhava o sentimento de ter vivido além do que suportava sua persona artística. Ou isso, ou não consigo achar nenhuma razão para MJ ter casado com a filha do Rei.

Em mais um lance de ironia da vida, não foi permitido a MJ sair de cena na hora certa. Será que ele sairia por conta própria? Teria esta vontade? Se tivesse, conseguiria se livrar de seu público e de sua vontade de aparecer?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para A Ironia do Mito

  1. gilvas disse:

    renatôncio, muito bem apontado: eu me referia a thriller, segundo disco de mj, e não ao primeiro. mj era menos pavão do que o contemporâneo prince, mas não deixava de ser um artista completo.

  2. turnes disse:

    Bom, como agora depois da morte do popstar todos somos especilaistas em jacko, tenho que te falar..acho que te referes ao disco Thriller, e não Off the Wall. É em Thriller que tem Beat it, e foi ele que vendeu centezilhões de cópias…Mas o que importa mesmo é que realmente até os 80 MJ era um artista impressionante. Ontem passou na MTV o making of do clipe de Thriller, um curta na verdade. MJ fazendo o que queria, escrevendo o roteiro, coreografando, dançando demais, muito criativo. É desse cara que todo mundo vai sentir falta mesmo. Abraços.

  3. Humberto disse:

    “Latoya Jackson já se garante lamentável pelo nome.”. KKK, FIM.

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