Iain Banks: Uma Canção de Pedra

Iain Banks é mais uma daquelas lombadas que só chamaram minha atenção porque Neil Hannon, O cara, me deu a dica em seu abrangente tratado de leituras The Booklovers. Não fosse tal indicação gravada, eu não teria me interessado pelo volume branco grafado em negro que o sebo da galeria Comasa exibia em uma prateleira discreta entre outros títulos internacionais. Seria uma pena: ainda que eu não concorde totalmente em colocar Banks ombro a ombro com Greene e Stevenson, seria injusto não lhes contar que o autor de Uma Canção de Pedra é muito bom.

A história de que trata o livro se passa depois de uma guerra. Que guerra? Não se sabe. Quando? Há algumas pistas, como o tipo de armamento e os veículos, mas elas só te permitem situar o ocorrido no século XX, segunda metade. Neste ponto, vale ressaltar um truque de Banks: ele força uma dicotomia entre o tempo em que se passam os eventos e a origem nobre do protagonista, localizada em algum ponto antes do século XIX.

Banks dá nome apenas ao protagonista, e a alguns serviçais do castelo. Os soldados possuem apelidos apenas. O cenário mental, então, é construído de forma similar à de Dogville: sem firulas, apenas as marcações no chão, apenas as delimitações necessárias. Os panoramas físicos, por outro lado, são repletos de descrições minuciosas. Toda a narrativa, inclusive, cheira a terra, lembra a umidade do chão e os musgos que me fizeram situar o local do romance no Reino Unido.

Abel é o protagonista, e escreve numa primeira pessoa perturbadora. Sua origem nobre, assim como a da mulher a quem ele se dirige, fica clara logo no início. Deste ponto de partida, sua vida desanda como a de qualquer refugiado preso ao universo caótico que vem logo após conflitos armados.

O autor não poupa descrições horrendas do que todos fingimos não saber acontecer em uma guerra. Abel se engana em boa parte do tempo, o que chega ao ápice nos últimos capítulos. Uma Canção de Pedra é uma história de redenção, ou, pelo menos, assim pensa Abel. O leitor, cuja vida não está presa nos laços daqueles acontecimentos, se permite a desilusão desde o princípio: esta história não acaba bem. Tudo que Abel consegue como paga pelos tormentos tenebrosos a que é exposto é uma espécie de êxtase pagão. Ele perde tudo, e talvez não sinta direito: ainda é um nobre, é blasé.

A adjetivação densa de Banks mantém um suspense firme durante toda a narrativa, forçando-nos a devorar as páginas. O escritor foi comparado a Stevenson e Greene, e não chega a ser um exagero. Possui a dimensão épica do primeiro com a noção cruenta de humanidade do segundo. Um dos poucos nomes contemporâneos da literatura européia a merecer atenção.

Um trecho da página 149 da edição brasileira, quando Abel ainda acha que legisla algo:

(…)

Absorva como terra, coopere como um fazendeiro, observe e espere como um caçador. É preciso que minhas estratégias permaneçam ocultas pro debaixo da aparência das coisas, como uma geologia apenas sugerida à superfície da terra. Ali no duro, palatinal deslocar das pedras subjacentes, o verdadeiro curso das histórias e continentes é decidido. Enterrado em meio à borda indefinida, estressada pelo choque contínuo mais abaixo, obedecendo às próprias trajetórias e regras, encontram-se forças armazenadas que dão forma ao mundo do futuro; uma garra cega e tosca de calor e pressão escuros e fluidos, captando e capturando – em pedra- seu próprio estoque de poder.

E o castelo, trazido à tona de dentro da pedra, construído de tal dureza por carne e cérebro e osso e pelas marés de todos os interesses competidores dos homens, é um poema assim entalhado dessa força; uma brava e bela canção de pedra.

(…)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Iain Banks: Uma Canção de Pedra

  1. MM disse:

    Fiquei paralisada com esse trecho que vc transcreveu, tal a emoção e envolvimento, colocando minha imaginação a mil. Qdo vejo a frase “uma imagem fala mais que mil palavras”, tenho que discordar. Hoje as mentes hipnotizadas pela TV, pelos atalhos estão sedentárias em relação a imaginação e criatividade , qualidades essas que uma boa leitura provoca. Então tenho minhas dúvidas que uma imagem possa surtir nessas pessoas reflexões. Agora nas pessoas que lêem, elas conseguem fazer uma viagem ao inverso e reverso, do particular ao todo e até uma imagem pode falar. A LEITURA É O QUE HÁ. Portanto vou ler sobre o que vc relata. Vc aguçou minha curiosidade.
    Ainda bem que tenho amigos que me trazem a realidade e me acordam, quando por distração sou pega pelas armadilhas do sedentarismo mental.
    Valeu.

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